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A reunião da escola, por Ana Cardoso

"Só, por favor, não projete teus medos, tuas frustrações e preconceitos em crianças que não fazem ideia do que você está falando"

Redação Pais&Filhos

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amarelinha

(Foto: iStock)

 

 

 

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Sexualizar – e pior ainda se for sem perceber – é roubar um pouco da infância das crianças. Observe: elas não nascem homofóbicas e se organizam, entre tarefas e preferências, sem preconceitos e com muito mais inteligência que nós. É isso que nossa colunista Ana Cardoso apresenta nesse texto:

Ontem teve reunião da turma da Aurora. A professora falava de “território” pra cá, “território pra lá”. Eu já tinha ouvido a Aurora mencionar esta “atividade”, mas não entedia direito que diabos eram os tais “territórios”.

Como uma criança bem-educada, levantei a mão e perguntei, correndo o risco de ser julgada como a mãe ausente/displicente. “Professora, afinal, o que é isso, um jogo?”, arrisquei quando ela me deu a fala.

A explicação foi surpreendente. A professora fez uma viagem nas férias para Buenos Aires, na Argentina onde conheceu esta técnica de desenvolvimento cognitivo na Escola Fabulinus. As últimas tendências em educação normalmente vêm da Europa com suas Escolas da Ponte (Portugal) e Emilias Reggias (Itália). Ou o modelo finlandês. Mas, veja bem, aqui do nosso lado tem gente fazendo diferente (e melhor) também.

Lá ela aprendeu a oferecer, em diferentes salas e locais da escola, materiais que podem servir de brinquedo, mas não vêm repletos de significados, como bocas e carrinhos. Assim, em uma sala dispõem tocos de madeira, na outra fitas cassetes, na outra um retroprojetor e botões. A melhor parte (pra ela) vem agora: ela senta e observa. Não interfere.

A organização das crianças deixa no chinelo o que um roteirista da Pixar escreveria. Elas se autogerem, delegam, setorizam. É a coisa mais linda de se ver. Isso eu já tinha espiado um dia pela janela. Que autônomos!

Acontece que um dos “territórios” é um salão de beleza. Com escovas, pentes, grampos e muito gel. Quando a professora anunciou a máxima da noite: “Adivinha quem domina completamente o salão? Os MENINOS.” Risadas e muita mãe de menino confirmando, balançando a cabeça. A professora fez uma pequena retificação em sua fala, pois uma mãe estava inconformada. “Sim, Roberta, a tua filha também, prefere o salão a qualquer outro território, mas é uma exceção”. A mãe de saia rodada suspirou aliviada.

Um pai fez uma piadinha: muitos meninos são machos até ouvirem a palavra gel! Isso me lembrou os muitos anos ouvindo bobagens assim. Certa vez, a mãe de uma coleguinha da Anita me disse que o marido costumava dizer: “Mulher é um bicho perigoso. Como alguém pode confiar em um animal que sangra uma semana por mês e segue vivo?”. Eu quase vomitei de tanto nojo do machismo dele. Felizmente estão separados hoje e ainda bem que o mundo está se tornando um pouquinho melhor.

Moral da história: Não gosta de gay? Não case com alguém do mesmo sexo. É contra o aborto? Não faça. Só, por favor, não projete teus medos, tuas frustrações e preconceitos em crianças que não fazem ideia do que você está falando.

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