Seu filho está disputando uma competição, até que comete um erro bobo. Abaixa a cabeça, olha para a arquibancada e começa a pensar: “Como consegui errar aquilo?”, “Meu treinador vai ficar bravo”, “Não posso errar novamente”.
A competição continua, mas a cabeça dele parece ter ficado naquele momento. E você, assistindo, pensa e/ou grita: “PRESTA ATENÇÃO!”, “ACORDA!”.
Mas e se eu te disser que talvez seu filho esteja extremamente focado? Só que na coisa errada.
Imagine que você está dirigindo. Sua atenção está na estrada, mas precisa olhar o retrovisor, conferir uma placa ou observar um veículo ao lado. Você muda o foco e depois o direciona novamente para o que importa, que é dirigir com segurança.
No esporte acontece algo parecido: o problema não é a atenção mudar de direção, mas não conseguir trazê-la de volta quando necessário. E essa capacidade precisa ser desenvolvida na infância.
Agora pense no ambiente em que nossos filhos estão crescendo. Vídeos de poucos segundos, aplicativos com estímulos constantes, notificações e novidades a cada movimento dos dedos.
Isso não significa que toda tecnologia seja prejudicial ou que seja a única responsável pelas dificuldades de concentração. Mas, quando a rotina oferece estímulos rápidos o tempo inteiro, quanto espaço estamos deixando para atividades que exigem paciência, espera e atenção sustentada?
Queremos filhos concentrados durante uma competição inteira, mas será que estamos proporcionando experiências que desenvolvam essa habilidade?
Ler, montar um quebra-cabeça, aprender um instrumento, concluir uma tarefa sem interrupções ou simplesmente brincar sem precisar de entretenimento constante. São experiências que podem ajudar a exercitar a atenção.
Mas existe outro detalhe que muitas vezes passa despercebido: enquanto cobramos que nossos filhos aprendam a direcionar a atenção, nem sempre percebemos como nós mesmos lidamos com isso. Quero compartilhar uma experiência pessoal que me fez enxergar essa questão de outra maneira.

Durante um acompanhamento de orientação parental, vivi uma descoberta importante com minha filha mais velha, que na época tinha apenas quatro anos.
Em algumas situações, ela apresentava comportamentos que deixavam minha esposa e eu irritados, as famosas birras. Acontecia aquela explosão emocional que parecia durar uma eternidade e, pouco tempo depois, ela já estava brincando como se nada tivesse acontecido. Mas nós continuávamos irritados.
E foi justamente aí que comecei a perceber algo importante. Mesmo com todo o conhecimento que eu já tinha sobre comportamento infantil, ainda precisava aprender a lidar melhor com minhas próprias emoções.
Por que continuávamos presos àquela situação se nossa filha já havia se acalmado?
Enquanto ela havia direcionado sua atenção para outra experiência, nós continuávamos emocionalmente envolvidos com o que tinha acontecido.
E quantas vezes fazemos exatamente isso no esporte?
Nosso filho erra, se reorganiza e tenta continuar, mas nós permanecemos na arquibancada balançando a cabeça, comentando o erro ou demonstrando frustração.
Às vezes, quem não consegue deixar o erro para trás não é a criança. Somos nós.
Nossos pensamentos podem prolongar emoções e manter nossa atenção presa a acontecimentos que já terminaram.
Por isso, ensinar concentração não significa exigir que uma criança nunca se distraia ou nunca pense no erro. Significa ajudá-la a perceber para onde sua atenção foi e aprender a direcioná-la novamente.
Depois de um erro, por exemplo, podemos ensiná-la a reconhecer o que aconteceu, respirar e perguntar: “Qual é a próxima coisa que depende de mim?”.
Não é uma frase mágica, é uma habilidade que precisa ser praticada, respeitando a idade e as características de cada criança.
Mas existe uma pergunta que talvez incomode um pouco: como podemos ensinar nossos filhos a voltar para o presente se nós mesmos continuamos presos ao passado?
Talvez seja hora de observar não apenas a concentração dos nossos filhos, mas também os hábitos e comportamentos que estamos desenvolvendo dentro de casa.
Porque foco não é nunca olhar para o retrovisor, é saber quando olhar e, principalmente, quando voltar a atenção para a estrada. E essa habilidade pode fazer diferença muito além das competições.
Quer aprender mais? No perfil do Instagram @profissaopaisdeatleta, eu compartilho estratégias para ajudar pais a compreenderem e desenvolverem habilidades emocionais e comportamentais nos filhos, dentro e fora do esporte.