Por Natasha Balen 10/09/26

Poucas coisas são tão comuns na maternidade quanto olhar para outra mãe e pensar: “Será que eu deveria estar fazendo isso também?”. Ela parece ter mais paciência, consegue organizar melhor a rotina, brinca mais com os filhos, trabalha e ainda encontra tempo para tudo. Talvez prepare refeições mais elaboradas, mantenha a casa em ordem ou pareça sempre tranquila diante dos desafios. Aos poucos, sem perceber, começamos a usar a vida de outra mulher como uma régua para medir a nossa.

O problema é que a comparação quase nunca acontece de forma justa. Quando observamos outra mãe, geralmente enxergamos apenas aquilo que está disponível aos nossos olhos, enquanto conhecemos profundamente todas as nossas dificuldades, inseguranças, cansaços e limitações. Vemos o resultado, mas não conhecemos o caminho. Não sabemos como foi a noite anterior, quais foram as escolhas que ela precisou fazer, o que deixou de lado ou quais dificuldades enfrenta quando ninguém está olhando.

Além disso, cada família parte de um lugar diferente. As crianças têm temperamentos, necessidades e fases distintas; as mães têm personalidades, histórias, redes de apoio e possibilidades diferentes. O que funciona muito bem para uma família pode ser completamente inadequado para outra. Até mesmo dentro da mesma casa, aquilo que funcionou em determinada fase pode deixar de fazer sentido alguns meses depois. A maternidade não é estática, e talvez essa seja uma das suas maiores complexidades.

As redes sociais tornam esse processo ainda mais intenso. Somos expostos diariamente a recortes cuidadosamente selecionados da vida de outras famílias: o passeio perfeito, a brincadeira educativa, a refeição colorida, a criança sorrindo, a mãe aparentemente disponível e feliz. Mesmo sabendo racionalmente que aquilo é apenas um recorte, emocionalmente podemos acabar comparando aquele momento editado com um dia inteiro da nossa vida real. E é justamente aí que uma inspiração saudável pode se transformar em sentimento de inadequação.

O que funciona para uma família pode não fazer sentido para outra. Respeitar essas diferenças também é uma forma de acolher a própria maternidade (Foto: Getty Images)

Também é importante lembrar que não existe uma única maneira correta de ser mãe. Há mães que gostam de organizar tudo com antecedência e outras que funcionam melhor no improviso. Algumas encontram realização conciliando maternidade e trabalho; outras escolheram reduzir o ritmo profissional por um período. Há quem adore brincar durante horas e quem demonstre presença de outras maneiras. Existem diferentes formas de cuidar, educar, amar e estar disponível, e nenhuma delas precisa ser uma cópia da experiência de outra mulher.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “por que eu não consigo fazer como ela?”, mas “o que faz sentido para mim e para os meus filhos?”. Essa mudança parece pequena, mas pode transformar a maneira como enxergamos a própria maternidade. Em vez de perseguir um modelo externo, começamos a observar nossa família, reconhecer suas necessidades e construir uma rotina possível. Não se trata de deixar de aprender com outras mães, mas de saber diferenciar inspiração de cobrança.

Comparar-se também pode nos fazer ignorar aquilo que fazemos bem. Quando estamos concentradas no que falta, deixamos de perceber os pequenos gestos que sustentam a relação com nossos filhos todos os dias: o colo depois de uma queda, a conversa antes de dormir, a paciência que encontramos mesmo estando cansadas, a comida preparada com carinho, ou simplesmente o fato de estarmos ali.

A maternidade é feita de inúmeros momentos que não aparecem em fotografias, mas que têm um enorme significado para uma criança. Uma maternidade suficientemente boa não é aquela em que tudo funciona perfeitamente, mas aquela em que existe espaço para conexão, reparação e crescimento. No fim, cada mãe está construindo uma história que não pode ser medida pela história de outra pessoa. Podemos aprender umas com as outras, trocar experiências e encontrar inspiração sem transformar essas diferenças em motivo para culpa. A maternidade não deveria ser uma competição para descobrir quem faz mais ou melhor. Talvez seja muito mais leve quando entendemos que nossos filhos não precisam da mãe que outra mulher consegue ser. Eles precisam, com toda a sua humanidade, da mãe que somos capazes de ser para eles.