Por Lane Baptista 24/10/26

A criança olha a brincadeira de longe, mas não se aproxima. Sabe a resposta da pergunta que a professora fez, mas não fala. Quer participar da apresentação da escola, mas chora quando chega a hora.

Quem acompanha de fora logo encontra uma explicação: “É tímida.” “Não gosta dessas coisas.” “Depois passa.”

Enquanto isso, por dentro, o coração faz tum-tum, tum-tum. A brincadeira continua, a professora passa para a próxima pergunta, a apresentação começa… e aquela criança fica com a vontade guardada no peito, sem conseguir mostrar que queria participar, comentar, dividir seus conhecimentos e habilidades.

O mutismo seletivo é um transtorno de ansiedade que impede a fala em determinadas situações, embora a criança converse em outras, nas quais se sente segura. A palavra “seletivo” confunde. Dá a impressão de que a criança decide quando e com quem falar, como quem escolhe qual roupa vestir.

Não, ela não escolhe.

Insistir num “responde, meu amor” não facilita a resposta. Às vezes, só aumenta a tensão que essa criança enfrenta.

E as dificuldades vão além das palavras.

Em alguns casos, o mutismo seletivo vem acompanhado de outros transtornos, como a ansiedade social. Ser observada, avaliada ou imaginar que vai cometer um erro provoca um desconforto intenso. Até uma atividade que não exige fala assusta quando coloca a criança no centro das atenções.

Por isso, dançar, entrar numa brincadeira ou se juntar a um grupo exige muito de algumas crianças. A vontade de participar está ali, coladinha, mas o medo também. Os dois habitando o mesmo corpinho.

A ansiedade aparece nos movimentos contidos, na expressão paralisada, no olhar desviado, na dificuldade de responder até com um gesto. Os adultos esperam uma reação. A criança busca um cantinho dentro de si onde consiga se sentir segura o suficiente para reagir.

No cotidiano, isso interfere nas amizades, nas atividades da escola e em necessidades simples do dia a dia. Pedir água. Avisar que está com dor. Dizer que precisa ir ao banheiro. A infância vai acontecendo e, enquanto isso, participar dela exige um esforço que nem sempre é percebido.

Existe ainda o risco de os adultos pararem de convidar a criança para as atividades.

“Ela não gosta mesmo.”

Cada criança tem seu tempo e suas necessidades para se sentir à vontade em situações sociais (Foto: Magnific)

Aos poucos, aquela dificuldade vira uma preferência atribuída à criança. E as oportunidades diminuem antes que ela encontre condições de aproveitá-las.

Aprendi isso dentro da minha própria casa.

Aos seis anos, minha filha chorou de soluçar quando perguntei se ela queria cantar no coral de Natal da pequena igreja que frequentamos. Ela ama cantar. Em casa, a música faz parte da nossa vida. Porém, estar em evidência diante de outras pessoas despertava um medo que o amor pela música, sozinho, não conseguia vencer.

Hoje, aos nove anos, ela participa daquele coral e incentiva outras crianças a cantar.

Recentemente, essa mesma menininha foi selecionada para uma produção de uma das principais companhias de balé do mundo, depois de uma audição disputada por centenas de crianças.

O tamanho dessa oportunidade emociona. Mas há outra conquista ali: conseguir participar de uma experiência que deseja viver.

Entre o choro diante do convite para o coral e a participação na audição, houve acompanhamento profissional, apoio e um aprendizado diário sobre como oferecer oportunidades sem transformar cada uma delas em cobrança.

As dificuldades continuam. Dançar num palco não significa conseguir falar em todos os lugares. Da mesma forma, um dia difícil não apaga as conquistas.

Nenhuma criança precisa chegar a um palco para que seu esforço tenha valor. Para muitas, a conquista é entrar na brincadeira. Para outras, pedir ajuda à professora. Há ainda aquelas que só querem permanecer numa atividade com menos sofrimento. Cabe a nós reconhecer o que cada uma delas precisa para viver mais a própria infância.

Esse cuidado é responsabilidade de todos os adultos presentes na rotina da criança. Envolve construir caminhos aos poucos, acolher outras formas de comunicação e evitar que toda tentativa venha acompanhada de olhares à espera de um resultado imediato.

É preciso escutar o que a criança demonstra em silêncio.

Neste outubro, mês de conscientização sobre o mutismo seletivo, vale olhar a vida diária mais de perto. Que pedido ficou preso? Que vontade passou despercebida? Estamos oferecendo apoio ou apenas esperando que a criança consiga por si só?

Cuidar é abrir espaço para que a criança expresse sua curiosidade, seu talento, seu humor, suas opiniões e seus sonhos, inclusive nos ambientes em que ainda se sente insegura.

Cuidar é ajudar a criança a sentir que tem seu lugar no mundo e que, independentemente do sentimento que ocupa seu coração, ela pertence aos ambientes em que vive.