O bebê que sorria para todo mundo, de repente, começa a chorar no colo da avó. Ou passa a querer só a mãe e deixa o pai de lado. A situação pode preocupar a família e até magoar o adulto “rejeitado”. Na maioria das vezes, porém, é sinal de que o desenvolvimento segue o caminho esperado.
Quando começa e por que até os avós são estranhados
Segundo Ana Luiza Ract, pediatra com atuação em neurodesenvolvimento infantil e mãe de Aurora, a preferência costuma aparecer por volta dos 6 meses. Nessa fase, o bebê passa a mostrar com mais clareza que se sente melhor perto de quem está sempre por perto. Já por volta dos 9 meses, a desconfiança diante de rostos menos familiares fica mais evidente.
Essa mudança é tão esperada que faz parte dos marcos acompanhados nas consultas de rotina. Ou seja, quando o bebê começa a se esconder no ombro dos pais diante de alguém diferente, o pediatra entende que ele está se desenvolvendo bem.

Mas por que isso acontece? De acordo com a pediatra, nessa fase o bebê está aprendendo a reconhecer rostos e a separar quem faz parte do seu dia a dia de quem aparece só de vez em quando. Por isso, até parentes queridos, mas que não estão sempre presentes, podem ser recebidos com choro. “Não significa falta de carinho, mas uma etapa natural do desenvolvimento emocional e social”, afirma.
A boa notícia é que a fase tem prazo para acabar. De acordo com o Manual MSD, referência médica internacional, o estranhamento costuma surgir entre os 8 e os 9 meses e desaparecer por volta dos 2 anos. Enquanto isso, vale conversar com os avós e explicar que a reação do bebê é esperada, para que ninguém se sinta rejeitado. E, se eles forem cuidar da criança por alguns dias, a dica é chegar um pouco antes, para que o bebê tenha tempo de se acostumar.
O bebê prefere a mãe. E agora, pai?
Quando o bebê prefere um dos pais, muitos se perguntam se o vínculo com o outro está mais frágil. Segundo Ana Luiza, não necessariamente. Em geral, essa escolha reflete a organização da casa: quem está mais envolvido nos cuidados diários tende a se tornar o porto seguro do bebê em determinados momentos.
Para se aproximar, o caminho é a convivência, e não a insistência. Segundo a pediatra, o que fortalece o vínculo é participar da rotina e criar momentos de conexão no dia a dia, muito mais do que buscar o contato físico a qualquer custo. Na prática, pode ser assumir a hora do banho, cantar uma música antes de dormir ou sentar no chão para brincar.
Na casa de Ana Luiza, a fase também apareceu com Aurora. A família apostou em estar presente e compartilhar o dia a dia com a filha, sem pressioná-la e respeitando o ritmo dela. “Afinal, vínculo se constrói com presença, afeto e respeito”, resume.
Quando procurar o pediatra
Embora o estranhamento seja esperado, alguns comportamentos merecem uma avaliação mais cuidadosa. Segundo Ana Luiza, vale ficar atento quando a criança não consegue criar laços nem se acalmar com quem cuida dela, mesmo depois de várias tentativas. Outro sinal é quando o apego a uma única pessoa é tão forte que a rotina da família fica comprometida.

O oposto também pode pedir atenção. Há crianças que reagem praticamente da mesma forma a conhecidos e desconhecidos. De acordo com a pediatra, isso sozinho não indica um problema, já que cada criança tem seu jeito. No entanto, se vier acompanhado de dificuldades para se comunicar, interagir ou se desenvolver, merece um olhar mais atento.
A regra, segundo ela, é olhar o todo. “Nenhum comportamento deve ser analisado isoladamente. Precisamos considerar a idade, o contexto familiar e o desenvolvimento global da criança.”