Querida leitora,
Domingo passado, eu acordei antes do sol. O silêncio da rua ainda tinha cheiro de noite e me vi ali parada em uma largada, com o coração batendo mais rápido do que o normal, não sei se de medo, expectativa ou os dois. Foram meus primeiros 10 km na corrida.
Acontece que não sou corredora, nunca fui e não tenho consistência em treinos para poder ser. Mas, nos últimos meses, alguma coisa em mim pediu movimento. Não sei explicar direito de onde veio essa vontade, só sei que um dia calcei o tênis e saí. E fui saindo, de novo e de novo, até que essa distância deixou de parecer impossível.
Enquanto corria, pensei em você, que cria sozinha. Porque não existe treino que prepare a gente de verdade pra uma prova de 10 km, assim como não existe curso, manual ou conselho de família que prepare alguém pra criar um filho sem dividir a noite em claro, a conta do mês, a decisão difícil com mais ninguém. A gente aprende correndo. Literalmente.
Eu quis desistir muitas vezes. Mas imaginei quantas vezes você também quis. Não de um treino, mas de um dia inteiro e, mesmo assim, se levantou porque tinha alguém pequeno esperando o café da manhã, o uniforme limpo, o colo pra acordar se sentindo melhor. A diferença é que eu podia escolher não correr. Você, na maioria das vezes, não tem pra quem passar o corre adiante.
No dia da prova, lá pelo km 4, minhas pernas já pediam pra parar. E foi ali que percebi: essa sensação eu já conhecia. Eu já tinha sentido isso antes, em outro ambiente da vida. Aquela vontade de desistir no meio do caminho, quando ainda falta tanto e o corpo (ou a alma) já está cansado de tentar. A boa notícia é que, pra mãe solo, essa sensação é tão conhecida que já sabemos que basta respirar um pouquinho e seguir em frente, porque parar não é exatamente uma opção.
Então, lembrando disso, eu não parei. Continuei num ritmo que era só meu, sem me comparar com quem passava ao meu lado, exatamente como fazemos em casa, nas rotinas com nossas crianças. Não desistimos só porque dói, mas também não nos cobramos pra ir na velocidade de quem não calça nossos sapatos, de quem tem outra vida, outra estrutura, outra estrada pela frente.
Teve uma mulher que correu do meu lado por uns dois quilômetros, sem combinar nada, só porque nosso passo coincidiu. Não trocamos nome, quase não trocamos palavra. Mas, em um momento em que minha respiração ficou pesada, ela olhou pra mim e disse só: “Vai, tá quase”. Isso ficou. E pensei em como você, mãe solo, tantas vezes corre sem essa companhia, sem ninguém do lado revezando o passo. Quando alguém aparece, mesmo que por pouco tempo, mesmo que só pra segurar a criança uma tarde ou escutar sem julgar, isso pesa diferente. Vale o dobro.

Lá pelo sétimo quilômetro, alguma coisa mudou. Não foi o corpo que ficou mais leve, foi a cabeça. Parei de pensar em terminar e comecei só a sentir. O vento, o barulho dos meus próprios passos, as pessoas nas calçadas gritando palavras de incentivo pra estranhos. Teve um momento em que eu quase chorei correndo, sem nem saber bem por quê. Acho que era gratidão. Gratidão por esse corpo que, apesar de tudo que já vivemos juntas, ainda topa se mover, ainda topa tentar coisas novas.
Cruzei a linha de chegada em uma hora e alguns minutos. Não foi rápido. Não importou. O que ficou não foi o tempo no relógio, foi a sensação de ter feito sozinha algo que, meses atrás, eu nem imaginava ser capaz. E foi impossível não pensar que você faz isso todos os dias. Cruza linhas de chegada que ninguém filma, que ninguém aplaude, que às vezes nem você mesma percebe como conquista. Terminar o mês. Colocar a criança pra dormir depois de um dia impossível. Rir de novo depois de um período em que rir parecia distante.
Acho que é disso que eu queria falar com você hoje. Do movimento como um jeito de se lembrar que a gente ainda pode. Que o corpo, esse mesmo corpo que a gente às vezes trata como inimigo, como projeto, como algo pra consertar, também pode ser um lugar de conquista. De liberdade. E que criar sozinha, mesmo sendo uma das corridas mais longas e menos escolhidas que existem, também é isso: um jeito de provar, dia após dia, que dá pra continuar mesmo quando ninguém está contando os seus quilômetros.
Porque tem um tipo de liberdade que só existe quando a gente se movimenta, mesmo cansada, mesmo sozinha. Não é sobre estética, não é sobre performance. É sobre ocupar espaço no mundo com o próprio corpo e a própria vida, decidida, na sua própria velocidade, mesmo quando ninguém dividiu o percurso com você.
Se você está numa fase difícil da sua corrida, seja lá o que isso signifique pra você hoje, eu queria te lembrar que o movimento não precisa ser grande pra valer. Às vezes é só sair de casa. Às vezes é só dar o primeiro passo, mesmo sem saber se vai aguentar os outros nove mil, mesmo sem ninguém do seu lado pra revezar.
Você aguenta mais do que imagina. E, se ninguém disse isso pra você hoje, eu digo. Vai, tá quase.
Com carinho,
Gabi Cano