Por Maria Fernanda R. Quartiero, mãe de Catharina, Pedro e Guilherme, fundadora e diretora-presidente do Instituto Cactus
Os dados preliminares do Panorama da Saúde Mental de 2026, que o Instituto Cactus publicará nas próximas semanas, trazem um resultado que, à primeira vista, parece boa notícia: entre 16 e 24 anos, os meninos pontuam muito melhor que as meninas no Índice Cactus-Atlas. Trabalho com esse índice; ajudei a construí-lo. E é justamente por isso que preciso dizer o que ele não mede.
Índices como o nosso dependem de quem admite dormir mal, sentir medo, chorar. Meninas respondem. Meninos, em grande parte, não. Não porque sofram menos, mas porque foram socializados para não contar o que sentem — muitas vezes antes mesmo de aprender a ler. O tombo no parquinho vira “já passou”; o choro é engolido; a vulnerabilidade é rotulada como fraqueza. Aos dezesseis, quando um pesquisador pergunta “como você está?”, o menino responde o que foi treinado a dizer: “tô de boa”.
Não é hipótese: é padrão. As estatísticas oficiais mostram o outro lado do silêncio. Nas notificações de lesões autoprovocadas, meninas e mulheres predominam; nos óbitos por suicídio, a proporção se inverte com brutalidade: em 2021, 77,8% dos suicídios foram de homens. Elas notificam mais; eles morrem mais. Nosso índice não é uma anomalia: ele apenas mede, antes, o mesmo silêncio que a estatística de mortalidade mede depois.
O Estado já sabe parte desse diagnóstico. Boletins do Ministério da Saúde associam conformidade com padrões rígidos de masculinidade a pior saúde mental e menor procura por ajuda. Está escrito, publicado, e não virou política. Desde 2009 existe a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, criada porque homens adoecem mais por causas evitáveis e procuram menos os serviços. Dezessete anos depois, ela segue subfinanciada e voltada ao adulto — quase sempre associada a violência e álcool, raramente à escuta do sofrimento. É política de homem feito; chega quando o menino já foi obrigado a virar aquilo que a sociedade exigiu.
Há um agravante econômico e cultural. Prometemos aos meninos um roteiro — provedor, estabilidade, respeito — que a economia contemporânea não garante. Para muitos, ser provedor hoje significa jornadas extenuantes em plataformas digitais, trabalho precário e insegurança.
O descompasso entre a promessa e a realidade não aparece como tristeza: aparece como raiva, porque a raiva é a emoção que a “caixa da masculinidade” autoriza. E, na ausência de espaços de acolhimento, sobram alternativas: comunidades tóxicas, influenciadores que oferecem pertencimento e respostas simplistas para uma dor real.

Também não é mistério antropológico. A masculinidade, descrita por psicanalistas e antropólogas, funciona como prova permanente — não diante das mulheres, mas diante de outros homens. É um pacto de validação entre pares que protege e silencia. Na coleta de 2023 do nosso índice, apenas 5% dos brasileiros faziam terapia; entre esses, os homens eram minoria. A saúde mental brasileira é medida, financiada e desenhada a partir da porta de entrada de quem entra. Quem não entra não conta — no duplo sentido da palavra.
O que precisamos, portanto, é simples e urgente. Primeiro, levar a saúde mental para a escola desde cedo, com linguagem que fale aos meninos e reconheça formas masculinas de sofrimento. Não se trata de doutrinação: trata-se de prevenção. Um menino que aprende a nomear o que sente aos oito anos é um homem que sabe pedir ajuda aos trinta — e que chega vivo aos trinta. Segundo, adaptar políticas públicas: a política do homem precisa descer até a adolescência, com financiamento e programas específicos para prevenção, identificação precoce e acolhimento. Terceiro, treinar profissionais de saúde para reconhecer manifestações masculinas de sofrimento, que muitas vezes se expressam por irritabilidade, risco e isolamento, não apenas por choro explícito. Quarto, mobilizar adultos — pais, professores, treinadores — para serem referências de cuidado, não apenas de cobrança.
Há uma oportunidade política rara: a saúde mental dos meninos é um tema de gênero em que, se bem colocado, convergem interesses que normalmente se opõem. Quem defende meninos “fortes” e quem teme meninos “violentos” chegam, por caminhos distintos, ao mesmo ponto: um menino que sabe o que sente. Não se trata de demonizar a força, e sim de ampliar as formas de ser homem. Existem maneiras masculinas de cuidar; elas apenas não são hegemônicas, e ninguém se deu ao trabalho de torná-las visíveis.
O Instituto Cactus qualificou tecnicamente o PL 329/2025, que institui a Política Nacional de Promoção de Fatores de Proteção da Saúde Mental de Meninas. É um projeto necessário e merece avançar. Mas o fato de existir um projeto para meninas e nenhum equivalente para meninos diz mais sobre nossas prioridades do que qualquer índice. Não é falta de quem se importe; é falta de caminho construído.
Oferecemos aqui um convite prático: sentar à mesa com quem quiser construir esse caminho — gestores, educadores, profissionais de saúde, movimentos sociais e famílias. Começar a conversar com os meninos, desde cedo, com escuta e cuidado. Ler os dados com lente de gênero é essencial: o silêncio dos meninos é informação, não ausência. Se queremos reduzir mortes evitáveis e construir uma sociedade mais saudável, o primeiro passo é simples e decisivo — e custa muito pouco diante do preço da omissão.