Por Luíza Lopes 30/10/26

Ele pega o brinquedo do irmão, ouve a bronca, diz “desculpa” e, dez minutos depois, faz tudo de novo. Quando o filho repete o erro depois de pedir desculpas, muitos pais se perguntam: será que ele entendeu o que fez, ou o pedido virou só uma palavra para encerrar a conversa?

A situação é comum em casa e na escola, e costuma gerar frustração. Afinal, se a criança já reconheceu o erro, por que não muda o comportamento? A resposta envolve a forma como ela aprende a perceber o sentimento do outro, o papel do adulto nesse processo e o que, de fato, ensina mais do que exigir um pedido de desculpas.

Quando a criança começa a perceber o outro

Segundo Val Pasini, colunista da Pais&Filhos, orientadora parental certificada em Disciplina Positiva e mãe de Cibele e Ronie, é entre os 3 e os 5 anos que a criança começa a notar que suas atitudes podem deixar outras pessoas felizes ou tristes. Essa percepção, no entanto, não vem pronta. Ela se constrói aos poucos, com as experiências do dia a dia e a orientação dos adultos.

Por isso, o “desculpa” nem sempre nasce dessa compreensão. Muitas vezes, explica Val, a criança se desculpa apenas porque o adulto exige, por medo de ser punida, sem ter entendido o que aconteceu.

Menino coloca a mão no ombro de uma menina que chora com as mãos no rosto, olhando para o lado com expressão preocupada
Perceber o que o outro sentiu é o primeiro passo para a criança aprender a reparar o que fez (Foto: Magnific)

Esse medo não passa despercebido nem pelos pequenos. Um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostrou a crianças de 4 a 9 anos três situações: desculpas espontâneas, desculpas sugeridas por um adulto mas dadas de boa vontade, e desculpas forçadas. As de 7 a 9 anos interpretaram o mal-estar de quem foi obrigado a se desculpar como interesse próprio, como o receio de castigo, e não como arrependimento. Crianças de todas as idades acharam que a vítima se sentia melhor depois de uma desculpa sincera, e pior depois de uma forçada.

Ou seja, a desculpa exigida às pressas não convence quem erra nem quem foi magoado.

Do entendimento à reparação

A saída que Val propõe vai na mesma linha das conclusões dos pesquisadores. Imagine uma criança de 4 anos que tira o brinquedo da mão de outra, que começa a chorar. Em vez de dar bronca ou criticar, o adulto pode usar o momento para mostrar o quanto aquela atitude entristeceu o colega. Uma forma de fazer isso é perguntar como ela se sentiria se alguém pegasse o brinquedo dela, e emendar: como podemos agir agora? “Nesta faixa etária, ela precisa da ajuda do adulto para desenvolver o entendimento”, diz Val.

As conclusões do estudo apontam no mesmo sentido: ajudar a criança a sentir empatia por quem foi magoado é mais eficaz do que arrancar dela um “desculpa” relutante.

Entender o que fez abre espaço para o passo seguinte: consertar. No caso do brinquedo, Val sugere mostrar à criança que ela poderia ter pedido para brincar ou chamado o amigo para brincar junto. Assim, além de perceber que a atitude não foi adequada, ela aprende que pode reparar o que aconteceu, seja devolvendo o brinquedo, buscando uma solução ou se desculpando. “Mais do que exigir um pedido de desculpas, precisamos ensinar à criança o que ele significa”, resume.

A pesquisa reforça que esse gesto tem peso para os pequenos: até crianças em idade pré-escolar valorizam quando quem errou faz as pazes com uma ação, e não só com palavras.

Pai sorri de olhos fechados enquanto abraça a filha pequena, de tranças, que está de costas apoiada em seu ombro
Paciência, diálogo e acolhimento ajudam a criança a aprender, mesmo quando o erro se repete (Foto: Magnific)

Repetir faz parte do aprendizado

E quando o filho repete o erro depois de pedir desculpas, mesmo tendo entendido o que fez? Para Val, isso não indica que a conversa foi em vão. A repetição faz parte do desenvolvimento: a criança pode até ter percebido que deixou o colega triste, mas ainda está aprendendo a controlar os impulsos e a lidar com as próprias vontades.

É aí que a orientação do adulto faz diferença. Segundo ela, é preciso paciência e constância para explicar quantas vezes forem necessárias, já que a criança aprende aos poucos, com a repetição, o diálogo e o exemplo.

Na prática, em casa

Val viveu isso também como mãe. Com filhos de idades próximas, as disputas eram frequentes, e não só por brinquedos. Ela conta que já procurava mostrar a eles o que tinha acontecido e como poderiam resolver a situação, e que isso precisou ser feito muitas vezes. “Não era porque eu explicava uma vez que eles compreendiam e, na próxima situação, agiam de maneira diferente”, lembra.

Para ela, esse é o centro da questão. “Educar é isso: ter paciência, conversar, orientar e repetir quantas vezes forem necessárias, porque a criança está aprendendo e se desenvolvendo.”

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