Quando a criança não gosta de ler, o exemplo de casa pode fazer toda a diferença. A professora Cris Oliveira sabe bem disso: a imagem que ela guarda do pai é a de um homem lendo na varanda de casa. “Isso foi muito importante e influenciou a minha vida”, conta a professora. Anos depois, o gosto pelas histórias virou ofício. Tudo começou em 2013, com um fantoche feito por uma amiga e uma história contada numa atividade de formação. Desde então, Cris não parou mais de contar histórias.
Hoje, na sala de aula, em São Vicente (SP), os alunos dela não só leem. Eles aprendem a contar histórias para as turmas menores e, todo ano, escrevem e ilustram o próprio livro. Quando questionada sobre o que motiva a turma, Cris explica: “Eles sabem que o nome deles vai estar lá no final”.
Neste 29 de outubro, Dia Nacional do Livro, a experiência de Cris ajuda a responder a uma dúvida comum em muitas casas: o que fazer quando a criança não gosta de ler? Para ela e para a psicopedagoga Paula Furtado, mãe do Fernando, a resposta passa longe da cobrança. Arteterapeuta e contadora de histórias, Paula é autora de mais de cem livros infantojuvenis, entre eles obras com a Turma da Mônica, e atende crianças com dificuldades de aprendizagem.
Para as duas, a leitura precisa entrar na rotina como momento de prazer e afeto, e não como tarefa escolar. E, mais do que tudo, a criança precisa ser a protagonista na hora de
A criança não gosta de ler ou sofre para ler?
Antes de buscar estratégias, vale observar o que está por trás da recusa. Paula explica que nem toda criança que diz não gostar de ler tem uma dificuldade de aprendizagem. Mas há uma diferença entre não gostar e evitar a leitura porque ela representa um sofrimento. “Se eu digo que não gosto de ler, não preciso me colocar diante de uma situação na qual me sinto incapaz”, resume.
Alguns sinais merecem atenção: resistência muito intensa, dificuldades persistentes na alfabetização, cansaço excessivo diante de textos curtos e autoestima abalada quando o assunto é ler. Nesses casos, uma avaliação psicopedagógica pode ajudar. “Muitas vezes, por trás de uma criança que diz ‘não gosto de ler’, existe uma criança que gostaria muito de conseguir ler sem sofrer.”
O exemplo vem antes de tudo
Se a criança não gosta de ler, o primeiro passo está nos adultos. As duas concordam num ponto: ela precisa ver adultos lendo. “Para formar leitores, você tem que dar o exemplo. Não adianta forçar a criança, insistir para que ela leia”, diz Cris. “Se eu não leio, se eu não gosto de ler, se eu não leio perto do meu filho, ele não vai se interessar por isso.” Foi assim na casa dela com a filha Rebecca, hoje com 21 anos. Cris sempre gostou de ler e acredita que ver a mãe com um livro nas mãos estimulou a filha.
Paula vai na mesma linha. Para ela, as crianças precisam conviver com pessoas que leem, que comentam uma história e que se emocionam com um livro. “Não adianta exigir que a criança goste de ler se os livros não fazem parte da vida da família.”

Ler perto da criança é só o começo. Também é preciso ler para ela e transformar esse momento em programa de família, como sair para comer ou passear, sugere Cris. Paula lembra que, muitas vezes, uma criança se apaixona por uma história porque alguém a contou com entusiasmo e carinho. “Uma criança pode até esquecer alguns detalhes de uma história, mas dificilmente esquecerá como se sentiu quando alguém lhe contou aquela história.”
Para a psicopedagoga, isso exige que os pais deixem de lado a pressa. Na vontade de que os filhos leiam cedo e tenham bons resultados na escola, muitos adultos acabam antecipando cobranças. “Antes de formar um leitor competente, precisamos despertar o desejo de ler.”
Estratégias para cada fase
- Ainda na barriga e nos primeiros anos: Não é preciso esperar a criança ficar mais velha. Segundo Cris, a leitura pode começar ainda na gestação. Ela também sugere montar em casa um cantinho de leitura, como existe nas escolas: um espaço aconchegante, no quarto ou na sala, com uma estante baixa e livros que a criança alcance sozinha.
- Na fase de descobertas: Quando a criança não gosta de ler, respeitar o gosto dela é essencial. Se ela gosta de dinossauros ou de livros de curiosidades, é por aí que vale começar. Paula amplia a lista com quadrinhos, livros de humor, poesias, aventuras e até receitas.
- Quando a criança já sabe ler: A leitura em voz alta não deve acabar com a alfabetização, porque continua sendo um momento de vínculo e troca. Uma dica é interromper a leitura num momento de suspense, para despertar a vontade de continuar. Levar os filhos a livrarias e bibliotecas também ajuda, mesmo sem comprar nada: só folhear e explorar os livros já aproxima a criança.
- Na adolescência: Paula recomenda ligar os livros ao universo dos jovens: filmes, músicas, quadrinhos e produções audiovisuais.
Histórias também estão fora dos livros. Cris propõe conversar sobre os desenhos animados a que a família assiste junta, já que eles também contam histórias. Outra ideia dela é inventar narrativas: o adulto conta uma história e pede que a criança crie a sua, do jeito dela. Para Paula, a arte é uma das portas de entrada mais bonitas para a literatura. A criança pode desenhar a cena preferida, dramatizar um trecho ou inventar um novo final. Mas a psicopedagoga lembra que nem toda história precisa virar atividade: “Às vezes, ela só precisa ouvir, imaginar e se emocionar.”
Regularidade, não rigidez
Metas como “tantas páginas por dia” costumam ter boa intenção, mas podem transformar a leitura em mais uma cobrança. “Regularidade não precisa significar rigidez”, diz Paula. Ela sugere pequenos rituais, como ler antes de dormir, compartilhar uma história depois do jantar ou levar livros para os passeios. “Às vezes, dez minutos de leitura compartilhada, com presença e envolvimento, são muito mais significativos do que meia hora de leitura imposta.”

E as telas? Para a psicopedagoga, a tecnologia não é inimiga: audiolivros e livros digitais também aproximam crianças das histórias. “O problema não é a existência das telas, mas o desequilíbrio”, afirma. “Talvez o maior desafio da nossa época não seja competir com as telas, mas devolver às crianças o tempo de imaginar.”
No fim, o objetivo é que o livro ganhe espaço na memória afetiva da criança. “Aquilo que nos dá prazer é aquilo que temos vontade de repetir”, conclui Paula.