Por Luíza Lopes 01/11/26

Na correria do dia a dia, é comum que os adultos assumam tarefas como guardar os brinquedos espalhados pela casa, levar a roupa suja ao cesto e arrumar a mochila da escola, porque fazer pela criança é mais rápido. Porém, quando isso vira padrão, a criança perde a chance de descobrir do que já é capaz, o que compromete o desenvolvimento da autonomia infantil.

Para a pediatra Betina Lahterman, mãe de Theo e presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), a autonomia infantil vai além de fazer algo sem ajuda, ela também desenvolve habilidades motoras, de organização, de planejamento e de resolução de problemas.

Autonomia infantil não significa fazer tudo sozinho

Participar da rotina mostra à criança que ela é capaz de aprender, experimentar e enfrentar dificuldades. As tarefas domésticas acrescentam outra camada: ao cuidar de um espaço que divide com a família, ela entende que faz parte do grupo e que sua contribuição importa. Isso fortalece o senso de pertencimento, a cooperação e a empatia.

Por isso, a pediatra defende que as tarefas façam parte da convivência familiar e nunca sirvam de castigo, como no clássico “se não fizer isso, vai lavar a louça”.

Criança de blusa laranja mexe uma salada em uma tigela de vidro com uma colher de pau, abraçada por um adulto que ajuda no preparo. Autonomia infantil
Deixar a criança escolher por onde começar aumenta o envolvimento com a tarefa (Foto: Magnific)

Na hora de estimular a autonomia infantil, as idades funcionam como referência, não como regra rígida. O ritmo de cada criança depende do desenvolvimento, do temperamento e das oportunidades que ela teve de aprender. A Cartilha de Desenvolvimento da SBP, que reúne marcos dos 2 meses aos 5 anos, segue a mesma lógica: os marcos indicam o que a maioria das crianças (75% ou mais) consegue fazer em cada idade. A ideia é ampliar a participação aos poucos, sem exigir perfeição.

Autonomia infantil em cada faixa etária

As orientações abaixo mostram como a autonomia infantil pode crescer a cada fase. Elas reúnem os marcos da cartilha da SBP, que vão até os 5 anos, e as recomendações da pediatra, que se estendem até os 12.

Até 2 anos

Nessa fase, a criança começa a seguir instruções simples e a copiar o que os adultos fazem, como varrer a casa. Por isso, já consegue participar de pequenos gestos do dia a dia, desde que com a ajuda de um adulto. Ela pode, por exemplo, pegar os sapatos antes de sair, colaborar na hora de se vestir, passando o braço pela manga, e escolher entre duas opções de roupa. 

De 2 a 3 anos

A criança passa a seguir instruções de duas etapas e a cumprir rotinas simples quando alguém pede. Isso permite que ela participe de tarefas curtas. O ideal é que sejam propostas em forma de brincadeira, porque o objetivo é criar o hábito de participar. Ela já pode guardar os brinquedos com ajuda, levar a roupa suja ao cesto e lavar frutas e legumes para a refeição.

De 4 a 5 anos

Aqui ela passa a gostar de ser “ajudante” e já consegue realizar atividades mais estruturadas sem ajuda, além de ter mais firmeza nos movimentos das mãos. Ainda assim, o resultado nem sempre vai ser perfeito. Ela pode guardar brinquedos e livros no lugar certo, arrumar a própria cama, limpar a mesa depois de comer e se servir de água com supervisão.

De 6 a 8 anos

A criança começa a assumir mais etapas de uma mesma tarefa, mas ainda precisa de orientação e, às vezes, de conferência do adulto. É uma boa fase para que ela se responsabilize pelas próprias coisas: organizar a mochila e o material escolar, dobrar e guardar roupas simples e ajudar a pôr e tirar a mesa. 

De 9 a 12 anos

Ela já consegue organizar boa parte da própria rotina e participar das decisões da família. Ela pode assumir tarefas mais complexas, desde que tenha aprendido a fazê-las e os riscos sejam compatíveis com o que consegue compreender. Já pode cuidar da própria roupa, preparar refeições simples e ajudar com as compras da casa, planejando a lista do mercado.

Quando a criança não consegue fazer a tarefa

Diante de uma dificuldade, a primeira pergunta é se a criança realmente não consegue ou se apenas não teve oportunidade. Betina lembra que o desenvolvimento é dinâmico: não termina quando a criança aprende a andar e segue ao longo da vida. Muitas vezes, é a pressa que leva o adulto a assumir o que ela já poderia fazer.

O caminho para desenvolver a autonomia infantil é mostrar como se faz, fazer junto nas primeiras vezes e passar as etapas aos poucos. A cartilha da SBP recomenda deixar a criança fazer as coisas por conta própria, ainda que o resultado não seja perfeito, e evitar “consertar” o que não precisa. Como observa a pediatra, aprender a arrumar a cama não significa deixá-la esticada do jeito que o adulto gostaria logo no primeiro dia.

Se a dificuldade continuar, vale observar alguns pontos: se a criança entendeu a explicação, se a tarefa é adequada à idade, se ela exige uma habilidade motora ou de organização que ainda está em desenvolvimento, ou se há cansaço ou ansiedade envolvidos. Quando o problema persiste mesmo com oportunidade e apoio, a orientação é procurar o pediatra. Segundo Betina, a pediatria hoje fala em intervenção oportuna, e não mais precoce, para aproveitar as janelas em que ainda é possível desenvolver uma habilidade.

Menino de cabelo cacheado seca as mãos com uma toalha branca no banheiro, enquanto uma mulher sorri e segura a toalha com ele gerando confiança para que ele tenha autonomia infantil
O apoio do adulto precisa gerar confiança para a criança tentar sozinha, mesmo que ela erre nas primeiras vezes (Foto: Magnific)

Limites e cuidados no dia a dia

A autonomia infantil precisa caminhar junto com a segurança, já que a criança pode conseguir executar uma tarefa sem ter maturidade para avaliar os riscos. Atividades com fogo, facas, remédios, produtos de limpeza, eletrodomésticos e trânsito exigem supervisão. Remédios e produtos de limpeza devem ficar fora do alcance, mesmo de quem sobe num banquinho.

Também é preciso diferenciar colaboração de sobrecarga. Cuidar continuamente dos irmãos, responder pelo bem-estar emocional dos pais ou deixar de dormir, brincar e estudar por causa das tarefas não é adequado. No consultório, Betina vê com frequência crianças de 8 anos ou pré-adolescentes que usam sozinhos a bombinha de asma e acabam culpados quando o tratamento falha. “Essa responsabilidade é do adulto, não é da criança”, afirma.

No dia a dia, a pediatra aposta nas pequenas oportunidades da rotina, como a cozinha, que envolve planejamento, etapas e até contas. Oferecer escolhas também ajuda, desde que dentro de limites claros. E o lúdico vale até para adolescentes. Com o filho de 15 anos, ela transformou em brincadeira o momento em que a cachorra da família apareceu com uma meia suja dele na boca, e Theo acabou levando as meias para o cesto.

Para a pediatra, a família funciona como um time, em que cada integrante contribui de acordo com a sua fase de desenvolvimento. Estimular a autonomia infantil não é criar filhos que dispensem os adultos, mas acompanhá-los enquanto descobrem tudo o que já conseguem fazer.

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