Um dos assuntos relevantes que trago como prioridade é a reflexão sobre a proteção da infância e relações familiares mais saudáveis. Marisa Mathtey, advogada, especialista e mediadora para solução de conflitos familiares pela PUC/SP, fala com propriedade dentro do grupo multidisciplinar do Escola para Pais. Ela traz uma leitura importante para você, leitor da minha coluna:
Em uma das sessões do meu trabalho voluntário como auxiliar da Justiça no Tribunal de São Paulo, tive a oportunidade de ouvir uma adolescente envolvida em intenso conflito familiar entre seus pais.
A história dela jamais saiu da minha memória.
Ela me contou que, quando tinha aproximadamente 14 ou 15 anos, foi a um jogo de futebol no Estádio do Morumbi com o pai. Os pais estavam em processo de separação e viviam discussões constantes, marcadas por acusações, inseguranças e disputas relacionadas à convivência com a filha.
Durante o evento, a adolescente se perdeu do pai em meio à multidão. Depois de algum tempo, um policial a encontrou e conseguiu ajudá-la.
O pai, desesperado e muito abalado, pediu que ela não contasse nada à mãe, afirmando que o problema já havia sido resolvido. Segundo ele, caso a mãe soubesse do ocorrido, certamente usaria aquele episódio contra ele, dificultando ainda mais sua convivência com a filha.
O homem dizia sentir medo de perder espaço na vida da adolescente, justamente em um momento tão delicado da separação.
A menina, ainda muito jovem, ficou profundamente angustiada. De um lado, amava o pai e não queria prejudicá-lo. De outro, sentia culpa por esconder algo importante da mãe. Ela passou a carregar um segredo que não deveria pertencer a uma adolescente.

Com o passar do tempo, aquele conflito de lealdade começou a causar graves consequências emocionais. A jovem desenvolveu ansiedade intensa, sentimentos de tristeza e episódios de automutilação. Ela acreditava ser responsável pela dor dos pais e pela manutenção de uma falsa paz entre eles.
Infelizmente, situações como essa são mais comuns do que muitos imaginam. Filhos não devem ser transformados em confidentes, mensageiros, juízes ou protetores emocionais dos pais. Crianças e adolescentes precisam de segurança afetiva, acolhimento e liberdade para amar ambos sem culpa.
Por isso, antes de levarem seus conflitos ao Judiciário, muitos pais poderiam buscar auxílio em mediações particulares ou nos CEJUSCs, espaços preparados para o diálogo e a construção de soluções mais equilibradas.
Quando existe disposição para conversar, muitas feridas emocionais podem ser evitadas.
Os pais arrastam os filhos para o conflito, sabotando o outro, falando mal, investigando, sem perceber que, se não sabiam, agora sabem.
Se quiserem, podem ressignificar a relação, recontextualizá-la no presente e transformar a dinâmica, a partir de si mesmos.
Como mediadora, já vi famílias se reconstruírem ao deixar a competição e assumirem uma postura colaborativa.
Qual presença você quer deixar na vida do seu filho? Competitiva, que destrói, ou colaborativa, que constrói?