Por Luíza Lopes 04/11/26

Fechar a porta do quarto, conversar com os amigos sem os pais por perto, ter senha no celular. Para muitos pais, a privacidade dos filhos levanta dúvidas sobre até onde vai o cuidado e onde começa a invasão. A lei dá uma pista. Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o direito ao respeito inclui a preservação da autonomia e “dos espaços e objetos pessoais” de crianças e adolescentes.

Isso não quer dizer que os pais devam se afastar. Para as especialistas ouvidas pela Pais&Filhos, a chave está em ajustar o acompanhamento à idade e deixar as regras claras.

A privacidade dos filhos cresce com a idade

Segundo a psicóloga Carla Saad, especialista em infância e adolescência e filha de Maria Inês e Carlos Wanderley, o desejo de ter um espaço só seu surge ainda na infância. Depois, ganha força por volta dos 12 anos, quando o jovem começa a buscar mais independência e a descobrir quem é. Para ela, porém, não existe uma idade exata.

Na infância, a supervisão precisa ser maior, porque a criança ainda conta com os adultos para entender limites e perceber riscos. Já na adolescência, o filho deve ganhar cada vez mais espaço para decidir. “Durante a infância, os pais são os pilotos do avião. Eles precisam estar mais no comando, mais atentos”, compara. “Na adolescência, eles precisam se tornar copilotos.”

Em outras palavras, os pais continuam presentes, mas dão mais liberdade. Afinal, o adolescente ainda não consegue medir sozinho os perigos e as consequências do que faz.

A advogada Ivanice Cardoso segue a mesma lógica. Ela é especialista em privacidade, proteção de dados e cyberbullying, e mãe de Helena e Beatriz. “Privacidade de menores é uma conquista deles. Da mesma forma que a autonomia para andar na rua sozinho é uma conquista”, afirma. Por isso, ela defende que a privacidade dos filhos seja liberada aos poucos, sob responsabilidade dos pais.

Quarto, conversas e sentimentos

Na adolescência, Carla recomenda respeitar o que o filho quer guardar para si, como as conversas com os amigos, aquilo que ele sente e a vontade de ficar mais tempo no quarto. Segundo ela, esse afastamento é esperado, ele faz parte do processo de individuação, em que o jovem se distancia um pouco da família para entender do que gosta e o que faz sentido para ele.

O isolamento só preocupa quando é frequente e intenso a ponto de afastar o filho da convivência com amigos e família. “O desafio é acompanhar essa transformação sem interpretar toda a busca por privacidade como um sinal de perigo ou rebeldia”, diz.

Menina deitada no chão do quarto, com as pernas apoiadas na cama e a parede decorada com quadros
Ter um espaço só seu faz parte da construção da identidade na adolescência. (Foto: Magnific)

E no celular?

Na internet, a regra é a mesma. Desde março, o ECA Digital (Lei 15.211/2025) obriga as plataformas a oferecer ferramentas de supervisão parental e exige que contas de menores de 16 anos em redes sociais estejam vinculadas aos responsáveis. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, porém, só 44% dos responsáveis conversam com os filhos sobre o que eles fazem online.

Para Carla, acompanhar envolve saber o que o filho faz na internet, falar sobre os conteúdos que ele vê e explicar como funcionam os riscos. Vigiar, por outro lado, é controlar demais, muitas vezes às escondidas e sem dar motivos. “Mexer no celular escondido com certeza pode abalar a confiança, principalmente quando acontece de forma recorrente e sem uma justificativa concreta”, afirma.

Ainda assim, deixar o filho por conta própria não é a saída. “Assim como a gente não deixa uma criança pequena andar sozinha na rua, não deixa um adolescente sozinho à meia-noite numa praça pública, a gente também não pode deixar que eles fiquem sozinhos no ambiente virtual sem nenhum acompanhamento”, diz a psicóloga. Para ela, os aplicativos de controle parental ajudam, desde que o filho saiba que eles existem. Veja mais dicas no manual Pais&Filhos de segurança na internet.

Combinados antes, não depois

Para Carla, as famílias costumam criar regras só depois de um problema, e o filho acaba se sentindo invadido. Por isso, o ideal é combinar tudo com antecedência. Antes de entregar o primeiro celular, por exemplo, ela sugere colocar no papel o tempo de uso, os conteúdos permitidos e os momentos sem tela, com a assinatura de pais e filhos. “Sempre antes. E não depois que uma situação difícil já aconteceu”, reforça.

Existe ainda um motivo legal para acompanhar. Ivanice lembra que, quando um filho menor de idade causa danos a alguém, a família pode responder civilmente e ter que repará-los.

Quando intervir

Alguns sinais pedem uma atuação mais direta dos pais. Carla cita mudanças bruscas de comportamento, prejuízos no sono, na alimentação ou no rendimento escolar, isolamento e agressividade. No caso do celular, também entram na lista a irritação quando o aparelho é retirado, o nervosismo quando os pais se aproximam dele e o contato com desconhecidos.

“Não basta só observar o comportamento. A gente precisa compreender o que está por trás”, diz. Se o sofrimento for intenso ou atrapalhar a rotina, o caminho é buscar um profissional. Afinal, como resume a psicóloga, “proteger não significa invadir indiscriminadamente”.

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