Você sabe quem pode ver as fotos do seu filho na internet agora, neste exato momento? A gente posta o primeiro dia de aula, a fantasia da festa, o sorriso com a janelinha do primeiro dente de leite perdido. É quase um reflexo de orgulho, e todos nós já fizemos isso. Mas vale se perguntar quantas pessoas, de fato, conseguem acessar aquela foto depois que a publicamos.
A pergunta ficou mais séria porque a tecnologia mudou. Fotografias que antes já podiam ser copiadas e compartilhadas sem autorização agora também podem ser manipuladas por ferramentas de inteligência artificial. Uma imagem comum pode ser transformada em um conteúdo falso, inclusive de cunho sexual. E, para isso, criminosos podem utilizar fotografias que encontram livremente na internet.
Para dimensionar o problema, a Internet Watch Foundation, organização britânica que atua no combate ao material de abuso sexual infantil na internet, identificou 6.310 imagens ilegais desse tipo geradas por IA apenas no primeiro semestre de 2026. O número é 40% superior ao registrado durante todo o ano de 2025. Em julho, diante do crescimento desse tipo de ameaça, a National Crime Agency e a própria fundação já haviam recomendado às famílias que evitassem publicar fotos de crianças em perfis abertos.
Esse hábito de compartilhar a vida dos filhos nas redes tem nome: sharenting, uma junção das palavras em inglês relacionadas a compartilhar e exercer a parentalidade. Na maioria das vezes, nasce do carinho, da alegria e da vontade de dividir momentos felizes. O problema é que, sem perceber, vamos construindo o rastro digital de uma criança que ainda nem sabe o que isso significa. E, muitas vezes, mostramos seu rosto, nome, idade, uniforme e até a escola na mesma publicação.

A boa notícia é que a saída não é parar de fotografar nem deixar de registrar cada fase. Essas memórias são preciosas. O importante é pensar em quem poderá vê-las. Deixar o perfil privado, usar a lista de amigos próximos, revisar quem são os seguidores e evitar imagens que revelem a escola, os lugares que a criança frequenta ou detalhes de sua rotina são cuidados simples que ajudam a reduzir a exposição. Não eliminam todos os riscos, mas já fazem diferença.
Também não podemos esquecer que nossos filhos têm direito à própria imagem. O fato de sermos seus pais não significa que precisamos compartilhar tudo. Conforme crescem, podemos conversar sobre o que pode ou não ser publicado, perguntar se querem aparecer e respeitar quando disserem que não. É uma maneira de ensinar, desde cedo, que a privacidade e os limites de cada pessoa merecem respeito.
Fica, então, o convite desta semana: abra seu perfil e olhe para ele como alguém que não conhece sua família. Quantas fotos do seu filho estão disponíveis para qualquer pessoa? E quem está do outro lado, acompanhando suas publicações? Será que todos os seus seguidores são realmente pessoas próximas? Ou, sem perceber, você acabou dando acesso à sua rotina a um fornecedor da última festa infantil, à secretária de um consultório médico, à vendedora de uma loja ou a alguém com quem conversou uma única vez? Não significa que essas pessoas tenham más intenções. A questão é que nem todo contato precisa ter acesso à intimidade da nossa família. E mesmo entre aqueles que conhecemos, será que pensamos sobre o que pode acontecer com uma foto depois que ela é compartilhada?
Não precisa ter medo, apagar tudo ou entrar em pânico. Escolha um cuidado e coloque em prática hoje. Revise seus seguidores, ajuste a privacidade da conta ou crie um grupo menor para compartilhar os momentos especiais.
Proteger a imagem deles é, no fundo, mais uma forma de colo.