Você está preparado para descobrir que seu filho pode ser a razão pela qual outro adolescente sofre escondido?
Quando ouvimos falar de bullying, imaginamos nossos filhos no centro do sofrimento. Mas e se a escola ligar para contar que seu adolescente espalhou um boato, excluiu um colega ou assistiu à humilhação e riu junto?
A descoberta pode provocar vergonha, tristeza e culpa. Ainda assim, um comportamento não define quem é seu filho, nem um episódio resume a educação que recebeu. E amar também é conseguir conversar sobre o que precisa mudar.
A violência nem sempre deixa marcas visíveis. Pode estar no grupo que ignora mensagens, na amizade usada para controlar, na foto publicada para mostrar quem ficou de fora. Para quem observa, é só mais um conflito. Para quem vive, pode ser perder o lugar onde acreditava pertencer.
É comum que, para tranquilizar, os adultos digam que é coisa da idade ou que logo passa. Mas, quando diminuímos a dor que um adolescente tenta compartilhar, corremos o risco de ensiná-lo a escondê-la. Na adolescência, o medo de ficar sozinho pode levá-lo a participar da humilhação ou a se calar para não ser o próximo.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (IBGE), 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos relataram humilhações recorrentes em 2024, e 13,7% admitiram praticar bullying.
No meu consultório, essa realidade tem rosto e história. Uma parcela expressiva dos adolescentes que chegam para atendimento traz questões relacionadas à violência relacional na escola. São situações que atravessam minha prática quase todas as semanas, muitas vezes escondidas atrás de dificuldades escolares, inseguranças e mudanças de comportamento.

Quando essas histórias chegam até mim, penso no que os adolescentes aprendem antes de entrar na sala de aula. Nossos filhos observam como falamos de quem não gostamos, como reagimos às diferenças e como tratamos quem não está presente para se defender. Podemos ensinar respeito durante anos e, numa conversa despretensiosa, demonstrar desprezo por alguém diferente.
Isso não significa que os pais sejam culpados. Nenhuma família controla todas as escolhas de um adolescente. Mas nossas atitudes oferecem referências, mesmo quando não queremos ensinar, e reconhecer essa influência pode ser o início de uma mudança, não de uma culpa.
Dentro de casa, podemos começar de duas maneiras.
A primeira é oferecer uma escuta que não transforme toda conversa em julgamento. Quando seu filho contar que alguém foi excluído, se interesse pelo lugar que ele ocupou naquela história. Se sofreu, acolha a dor. Se agrediu, ajude-o a compreender as consequências e reparar o dano. Se assistiu, converse sobre a coragem de pedir ajuda ou apoiar um colega sem se colocar em risco.
A segunda começa pelo nosso comportamento. Observe as brincadeiras e os comentários sobre os outros. Apesar de simples, não é uma tarefa fácil. Ao perceber que errou, reconheça diante do seu filho: um adulto que assume seus equívocos ensina que responsabilidade e afeto caminham juntos.
Nem todo conflito é bullying. Amizades terminam, grupos mudam. O alerta surge quando humilhação, intimidação ou exclusão se repetem numa relação de desequilíbrio de poder. Nesses casos, escola e família precisam agir juntas, protegendo quem sofre e acompanhando quem agride.
Quem foi ferido não se resume à dor, quem agrediu continua capaz de aprender, e quem se calou por medo pode encontrar coragem.
Nossos filhos não precisam de pais impecáveis, precisam de adultos dispostos a viver os valores que desejam ensinar. Porque o respeito que esperamos nas relações deles começa na maneira como construímos as nossas. E, quando precisarem escolher entre acompanhar a crueldade ou reconhecer a humanidade de alguém, que tenham aprendido conosco o valor dessa escolha.