A maternidade nem sempre segue caminhos previsíveis.
A história da australiana Kirsty Bryant, publicada pela publicada pelo VivaBem/UOL, por exemplo, chamou atenção ao mostrar até onde a medicina e o amor familiar podem chegar.
Após perder o útero ainda jovem, ela conseguiu realizar o sonho de ter outro filho graças a um transplante de útero feito com o órgão doado pela própria mãe.
Para muitas mulheres, especialmente mães que acompanham de perto temas ligados à fertilidade, saúde reprodutiva e ciência, o caso representa esperança, avanço médico e uma nova forma de olhar para a maternidade quando o corpo impõe limites inesperados.
Uma complicação no parto que mudou tudo
Em 2021, após o nascimento da sua primeira filha, Violet, Kirsty sofreu uma grave hemorragia pós-parto. A complicação foi tão complexa e severa que, aos 28 anos, ela precisou passar por uma histerectomia, cirurgia que remove totalmente o útero.
Apesar da gratidão por ter uma filha saudável, o impacto emocional foi profundo.
A possibilidade de não engravidar novamente trouxe luto, frustração e um processo de reconstrução emocional que muitas mulheres conhecem tão bem.
A maternidade, afinal, também é feita de sonhos interrompidos e, às vezes, ressignificados.
O amor de uma mãe
Foi nesse contexto que Kirsty recorreu à mãe, Michelle, então com 56 anos.
Em uma conversa direta e carregada de emoção, ela perguntou se a mãe aceitaria doar o próprio útero para que ela gerasse outro filho. A resposta foi imediata: sim.
O gesto ultrapassa a medicina e toca diretamente na parentalidade. Uma mãe que gera a filha e, anos depois, oferece o mesmo órgão para que ela possa gerar seu próprio filho cria uma história que atravessa gerações.
O transplante de útero
O procedimento foi realizado no início de 2023, no Royal Hospital for Women, na Austrália. Michelle e Kirsty se tornaram as primeiras pacientes do país a passar por um transplante uterino bem-sucedido entre pessoas vivas.
No entanto, cirurgia foi longa e complexa:
- cerca de 11 horas para a retirada do útero da doadora
- aproximadamente 4 horas para o transplante na receptora
A equipe foi liderada pela médica Rebecca Deans e contou ainda com a participação do renomado cirurgião sueco Mats Brännström, responsável por realizar o primeiro transplante de útero bem-sucedido do mundo, em 2014.
Apesar de desafios no pós-operatório, como perda de sangue e transfusões, o órgão respondeu bem e o transplante de útero foi um sucesso.
O caminho até a gravidez
Pouco mais de um mês após o transplante, Kirsty teve sua primeira menstruação, um marco simbólico e médico importante. Antes mesmo da cirurgia, ela e o marido haviam recorrido à fertilização in vitro, preparando embriões para uma futura tentativa.
Três meses depois, veio a transferência do embrião.
O resultado foi histórico: em dezembro de 2023, nasceu Henry, o primeiro bebê da Austrália gerado em um útero transplantado e, de forma ainda mais simbólica, no mesmo útero que havia gerado sua mãe décadas antes. Uma história de sucesso e muito amor.
Um transplante diferente de todos os outros
O transplante de útero tem uma característica única: ele é temporário.
Ou seja, após a mulher gerar o número de filhos desejado, o órgão pode ser removido, permitindo a suspensão dos medicamentos imunossupressores.
Segundo a Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), essa abordagem reduz riscos a longo prazo e diferencia o transplante uterino de outros tipos de transplante de órgãos, como o transplante de coração, por exemplo.
No caso de Kirsty, após o nascimento de Henry, ela decidiu não passar por novas gestações. Em 2024, passou por uma nova histerectomia e cessou os medicamentos.
O transplante de útero no Brasil e no mundo
Embora ainda seja considerado um tratamento experimental, o transplante uterino tem avançado rapidamente. Veja alguns marcos importantes ao redor do mundo:
- Suécia: referência mundial, com diversos casos bem-sucedidos desde 2013.
- Brasil: em 2016, o Hospital das Clínicas da USP realizou o primeiro transplante de útero de doadora falecida que resultou no nascimento de um bebê saudável.
- América Latina: em 2024, a cidade de São Paulo sediou o primeiro transplante uterino bem-sucedido entre pessoas vivas da região.
A história de Kirsty e Michelle vai além da medicina. Ela fala de apoio familiar, empatia e da força dos laços entre mães e filhas.
Para muitas mulheres, o caso simboliza esperança — não apenas de gerar um filho, mas, principalmente, de encontrar novos caminhos para viver a maternidade.
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