Por Mariana Bertevello 30/10/26

Você corta a fruta de um jeito, mas ele queria de outro, então corta uma nova fruta. Deixa brincar mais cinco minutinhos no banho, mesmo depois do horário combinado para sair. Sempre rola mais um episódio antes de desligar o desenho, mesmo quando você já tinha dito que aquele seria o último. Aquela batatinha frita mais crocante de todas, que você deixou separada para comer por último, acaba ficando com ele. Aos poucos, essas pequenas concessões viram parte do dia a dia.

Depois do Dia das Crianças, dos presentes, dos passeios e de toda a pressão, externa e interna, para proporcionar momentos especiais que virem memórias da infância, fica uma provocação: ser uma boa mãe significa dizer sim para tudo?

Eu acredito que não. Quando dizemos sim para tudo, podemos perder a oportunidade de ensinar nossos filhos a lidar com o não. Imagine que você combinou que seu filho veria apenas um episódio antes de dormir. Ele pede mais um, você cede para evitar a frustração e o horário atrasa. O sim ao desenho acabou passando por cima de um limite que você mesma havia estabelecido.

Quando esse comportamento se repete para evitar a frustração da criança ou aliviar a própria culpa, pode abrir espaço para a permissividade: atender aos desejos da criança sem considerar os limites e as possíveis consequências. Aos poucos, ela passa a participar de decisões que ainda exigem uma maturidade e uma compreensão do contexto que não tem.

Aprender a ouvir um não também faz parte de crescer. Em casa, a criança começa a perceber que nem todos os desejos podem ser atendidos, que a frustração faz parte das relações e que o limite do outro não significa falta de amor. Dizer não de forma respeitosa é uma maneira saudável de cuidar dos nossos filhos.

Demonstrar amor não significa atender a todas as vontades, mas estar presente e estabelecer relações de respeito (Foto: Getty Images)

Quando uma mãe passa muito tempo dedicada ao trabalho, é compreensível que queira compensar a ausência agradando o filho. Talvez espere que os momentos felizes juntos sejam mais marcantes do que as lembranças dela trabalhando. Mas, quando a culpa passa a orientar suas decisões, ela pode começar a abrir mão dos próprios limites, do descanso e da rotina que tenta sustentar. O alívio de evitar uma frustração agora pode trazer mais sobrecarga para toda a família depois.

Quando uma mãe diz não para respeitar um limite próprio, preservar um valor pessoal ou manter um combinado importante para a família, ela também ensina pelo exemplo. Mostra que é possível considerar as necessidades dos outros sem ignorar as próprias e que cuidar de alguém não exige abrir mão de tudo em que se acredita. Essa experiência pode ajudar a criança a construir relações mais respeitosas.

Ela pode aprender que, muitas vezes, dizer não ao outro também é dizer sim para si mesma. Que não precisa atender a todos os desejos para demonstrar amor e que respeitar os próprios limites faz parte de qualquer relação saudável. Para uma mãe, encontrar esse equilíbrio é difícil, especialmente quando a culpa entra na decisão. Mas aprender a escolher quando dizer sim e quando dizer não também faz parte do cuidado que ela oferece ao filho.

O objetivo não é dar conta de tudo, mas sim sustentar o que realmente importa.

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