De vez em quando, no consultório, uma mãe me pergunta, de forma bem sincera: “Meu filho só quer brincar, será que está tudo bem?” Eu sempre sorrio antes de responder. Está tudo bem, e é exatamente assim que deveria ser. Brincar não é o que sobra da infância: é o coração dela.
Ser criança é habitar um tempo diferente do nosso. Enquanto os adultos correm atrás de prazos e resultados, a criança se demora: olha a formiga, inventa uma história, refaz o castelo de blocos pela décima vez. Esse “atraso” não é distração, é construção em silêncio, camada por camada.
O brincar, aliás, não é um favor que concedemos. Direito garantido pela Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU, defendido por autores como o psicanalista Winnicott, para quem brincar é a forma mais natural de comunicar-se e desenvolver-se.
Na clínica, vejo isso todos os dias. É no faz de conta que a criança dá nome ao que sente: o medo vira o monstro que ela vence, a chegada do irmão vira a boneca que “nasceu”. Quando o brincar é livre, o que aparece não é vazio, é um mundo interno inteiro pedindo passagem.
Outra coisa que aprendi escutando famílias: cada criança tem um ritmo próprio, como cada flor tem seu tempo de desabrochar. Haverá a que fala primeiro e a que anda primeiro; a que se solta na escola logo que chega e a que precisa de semanas. Nenhuma delas está “atrasada”; estão sendo elas mesmas.

O problema é que vivemos uma infância cada vez mais apressada. As crianças são cobradas a render muito cedo: ler antes da hora, performar, ocupar a agenda. Acelerar esse ritmo não cria gênios precoces; cria ansiedade disfarçada de estimulação.
E há um detalhe que surpreende os pais: a criança não precisa de atividades incríveis o tempo todo. Ela precisa de tempo livre. É no “nada para fazer” que nasce a imaginação: a caixa de papelão vira foguete, o tédio vira invenção.
Eu adoro lembrar que o adulto precisa da sua criança para imaginar, e a criança precisa do seu adulto para realizar, sendo a união da brincadeira com a maturidade que faz uma vida criativa.
Se você se pergunta como traduzir isso na rotina, comece pequeno:
- Proteja o tempo livre de brincadeira, sem tela e sem agenda, mesmo que sejam 40 minutos por dia.
- Deixe a criança se entediar: é aí que a imaginação trabalha.
- Brinque junto, sem ensinar. Siga a história que ela cria, em vez de corrigir ou dirigir o faz de conta.
- Observe antes de comparar. O ritmo do seu filho não é uma corrida contra o filho do outro.
- Agenda cheia? Reduza uma atividade extracurricular. Menos compromissos, mais infância.
Ser criança, afinal, é isso: ter o direito de demorar, errar, inventar e crescer no próprio tempo. E nós, adultos, temos o privilégio de guardar esse tempo em vez de tentar ocupá-lo.