Por Dra Camila Canguçu 04/11/26

Tenho percebido, cada vez mais, pessoas relatando dificuldades para dormir. Se fossem apenas minhas amigas, que, assim como eu, estão próximas dos 50 anos, entrando na perimenopausa ou já passando por essa fase, talvez isso não chamasse tanto minha atenção. Mas a queixa também aparece entre adolescentes, homens e mulheres mais jovens. Será que o estresse explica tudo ou existem outros fatores envolvidos?

Recentemente, ouvi um podcast em que um especialista comentava uma mudança nas habilidades valorizadas pelo mercado de trabalho. Antes, ter acesso à informação e conhecimento técnico representava um diferencial. Hoje, com a informação amplamente disponível, parece haver uma valorização crescente da capacidade de resolver problemas rapidamente. Não basta entregar um bom trabalho. Espera-se manter a qualidade e produzir mais em menos tempo. Além disso, muitos profissionais precisam desenvolver habilidades que não faziam parte de sua formação ou de suas atividades originais, como produzir conteúdo para redes sociais e aprender a utilizar novas tecnologias. São demandas que frequentemente ultrapassam o expediente e ocupam horas que antes poderiam ser dedicadas ao descanso.

E como isso se relaciona com o sono? Dormimos mais tarde para terminar tarefas, responder mensagens, aprender novas habilidades e cumprir prazos. Aos poucos, o trabalho ocupa um espaço cada vez maior na nossa rotina, e o tempo dedicado ao descanso acaba diminuindo.

Penso em um paralelo com a alimentação. Quando o fast-food e as refeições prontas congeladas começaram a fazer parte da rotina de tantas famílias, ofereciam praticidade e economia de tempo, sem a necessidade de preparar uma refeição ou arrumar a cozinha depois. Com o passar dos anos, compreendemos melhor as consequências do consumo frequente de alimentos ultraprocessados para a saúde.

A cobrança por produtividade pode fazer com que o descanso seja constantemente adiado (Foto: Getty Images)

Assim como demoramos a reconhecer os impactos de certas escolhas alimentares, tenho a impressão de que ainda não damos a devida importância às consequências de dormir mal. Muitas vezes, só procuramos ajuda quando a falta de sono realmente impacta nossa saúde física e mental.

Transformamos o quarto em escritório, respondemos mensagens na cama e assistimos a vídeos até tarde. Mantemos horários irregulares e atividades estimulantes perto da hora de dormir. Aos poucos, dormir menos se torna parte da rotina. E, depois de um dia tão cheio de atividades e estímulos, às vezes queremos dormir, mas o sono simplesmente não vem.

Não é raro ouvir alguém dizer: “Eu só preciso de cinco horas de sono por noite”. Mas será que precisamos mesmo de tão pouco ou nos acostumamos a viver dormindo menos do que necessitamos?

O sono é uma necessidade biológica fundamental para a saúde física e mental. Não é um intervalo improdutivo entre um dia e outro. Dormir mal pode prejudicar a memória, a concentração e a regulação emocional. Também pode reduzir nossa capacidade de sentir prazer em atividades antes agradáveis.

Nossa tolerância às frustrações pode diminuir, tomar decisões exige mais esforço e as relações interpessoais podem sofrer. É um efeito em cascata. Na rotina familiar, que exige atenção, flexibilidade, paciência e disponibilidade emocional, essas consequências podem trazer muitos desafios.

Rever a maneira como valorizamos nosso tempo nunca foi tão importante. Em uma sociedade que associa produtividade a estar sempre ocupado, descansar pode parecer um luxo ou até uma perda de tempo.

Mas dormir não é deixar de fazer alguma coisa importante. Dormir é uma das coisas mais importantes que precisamos fazer.