Por Valesca Karsten 04/12/25

Dia desses, substituí uma professora, ela precisou sair por alguns minutos. Entrei na sala devagarinho, todas as crianças da turma me conhecem bem. Algumas desenhavam, recortavam, pintavam, outras estavam sentadas no tapete, jogando o jogo da memória. Sentei pertinho, discreta e fiquei observando. Pensei em como me aproximaria sem atrapalhá-los. 

Segui olhando e, de repente, vi o casaco da professora pendurado num gancho. Peludinho, estampado de onça. Foi a deixa que encontrei para chamar atenção da turma:

— Nossa, tem uma onça pendurada nessa sala!

Joana me olhou- com aquela segurança típica de quem sabe das coisas:

— Nem é uma onça, é um casaco!

Outras crianças levantaram os olhos, curiosas, silenciosas. Até que um menino, (nessa turma, crianças de quatro e cinco anos), chegou perto e disse:

— Vavá, sabia que eu nem tenho medo de onça?

Perguntei:

— Sério? E se você estivesse na floresta, de noite, sozinho… teria medo?

E ele:

— É que de onça eu não tenho medo. Mas do escuro, sim.

É um privilégio acompanhar de perto esse pensamento livre, criativo e transparente das crianças. É isso que me encanta na minha caminhada como educadora e, ao mesmo tempo, acolher os pais nas travessias da parentalidade. Esse trabalho imenso, delicado, exigente e cheio de sentido.

Mas voltando ao medo…

E você? Tem medo de quê?

Pergunto para você, leitor(a): você sabe nomear os seus medos? Eu não. Sinto que carrego vários, mas nem sempre consigo dar nome a eles – como aquele menino que, com tanta naturalidade, disse que tem medo do escuro. Será que tenho medo de nomear os meus? Talvez. Porque só de pensar nisso enquanto escrevo… me deu medo.

(Foto: Getty Images)

Entre dois e seis anos, a imaginação das crianças está a mil. Elas começam a diferenciar o real do imaginário, mas ainda estão organizando essa fronteira entre “o que é” e “o que pode ser”. Por isso, o escuro, as sombras, a noite e até a dificuldade de relaxar para dormir podem ganhar interpretações fantasiosas. Faz parte. É assim mesmo.

Nesse meio-tempo, moram também outros medos comuns: tempestade, lobo, bruxa, fantasma, extraterrestre, mar. Para aliviar, recomendo a coleção da autora Fanny Joly, que trata desses “medos sortidos” com humor e leveza.

E agora, com o final do ano se aproximando…

No meio de tanto a fazer, esse período traz um pedido silencioso de pausa. As crianças, mais do que presentes, precisam da nossa presença. Do olhar que não corre. Do corpo que fica. Do abraço que não tem horário.

Nesse período entre o Natal e o novo ano que se aproxima, que cada família encontre pequenos respiros: uma história antes de dormir, um passeio sem pressa, um bolo feito em conjunto, um riso que nasce sem esforço. Que a gente possa criar memórias afetivas do jeito que as melhores são feitas: devagar, com espaço, com verdade, com vontade e mais, com esperança.