Talvez para uma outra geração, lá pelos anos 70, a glória era sair de casa, morar em república, dormir sobre um colchonete no chão (como fala meu marido) e colocar os livros em uma estante feita de tábuas e tijolos. Hoje, algumas gerações depois, o refúgio da juventude é o próprio quarto dentro da casa dos pais, com acesso à internet em todos os cantos do mundo, com liberdade flertando com a falta de limites – a grande questão de oito entre dez livros de ajuda para pais na atualidade.
Lá fora, a violência corre solta nas grandes cidades (e até nas pequenas), por isso a família se resguarda, protegendo e mimando seus filhos por mais tempo, mantendo-os na redoma familiar. Pegar ônibus com menos de 15 anos de idade, nem pensar. Se o presente dos jovens está na família, mesmo ilhados em seus espaços e telas, como a família entra no projeto de futuro? Sim, ela ainda está lá vivendo nos ideais dos jovens, agora em múltiplos formatos possíveis. E os modelos que temos em casa, como há gerações, continuam influenciando o nosso comportamento, seja para um lado ou para o outro. Por isso mesmo, ao olharem hoje para seus pais, não só trazem uma lista de desejos de mudança, como também apontam para o que gostariam de mudar em suas vidas adultas.
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Pelas pesquisas que faço com a geração Alpha, aqueles nascidos após 2010, muitos deles com muita franqueza relatam que querem trabalhar menos que seus pais e usufruir mais a vida e aquilo que o trabalho proporcionará. Hoje, ver seus pais cansados e estressados talvez seja um bom sinalizador do que querem evitar. Alguns relatam querer ter um negócio próprio, ser um empreendedor e assim donos de seus próprios destinos e, talvez um pouco ilusoriamente, de seus tempos. Mais um sinal de que a liberdade é o que os conduz e, qualquer coisa que possa representar aprisionamento, oferece automaticamente uma repulsa.
A velocidade dos tempos atuais também molda os sonhos e a palavra de ordem é buscar caminhos curtos e rápidos para o atingimento das metas. Um pouco de tudo isso é reflexo de como veem seus pais hoje, equilibrando muitos pratinhos e sendo modelos pouco sedutores para eles. Em parte, é a forma como estamos os educandos, com ampla liberdade e, em muitos casos, baixa tolerância à frustração. E, uma outra parte, fruto de nossa cultura digital e acelerada, em que a IA já nos entrega tudo pronto e mastigado.
Talvez a realidade os force a rever seus conceitos, mas até lá eles seguem sonhando tendo nós, pais, somos coautores desses sonhos. Para o bem e para o mal.