Outro dia me peguei fazendo uma conta que não cabia na calculadora.
De um lado, o valor de uma oportunidade de trabalho boa que surgiu. Do outro, algumas muitas horas que deixaria de passar com meus filhos. No meio, uma mulher tentando descobrir quanto custaria escolher e se existia alguma maneira de sair da decisão sem dever nada a ninguém, nem a mim mesma.
Não era uma decisão especialmente dramática, era apenas trabalho. Uma oportunidade boa, daquelas que a gente deseja e comemora quando finalmente aparecem.
Mas bastou olhar para a agenda das crianças para que a alegria viesse acompanhada de uma velha conhecida: a culpa.
É curioso como a maternidade consegue transformar até uma conquista em algo que precisa ser justificado.
Se trabalho muito, sinto que estou ausente. Se diminuo o ritmo, me preocupo com o futuro. Se recuso uma oportunidade, penso no que estou deixando de construir. Se aceito, começo imediatamente a calcular o que estou deixando de viver.
E, quando se é mãe solo, essa matemática ganha algumas operações extras, porque não se trata só da preocupação com o tempo. Tem a responsabilidade financeira, a necessidade de segurança e o alerta permanente de que a estabilidade da minha família depende das minhas decisões.
É preciso ganhar dinheiro, mas também estar presente. Construir uma reserva, mas aproveitar a infância. Garantir o amanhã sem deixar que ele consuma todo o hoje.
E, no meio disso tudo, existe uma pergunta que raramente fazemos em voz alta: e se eu quiser ganhar mais dinheiro não apenas porque preciso, mas porque gosto?
Porque gosto de trabalhar, de construir alguma coisa que é minha, de conquistar, de prosperar. Porque tenho ambições que não nasceram da maternidade e que não desapareceram quando meus filhos nasceram.
Porque quero ter conforto, viajar, investir, construir patrimônio, realizar desejos que não precisam necessariamente beneficiar outra pessoa para serem legítimos.
Porque quero ter escolhas.

Durante muito tempo, aprendemos a apresentar a ambição materna como uma forma de sacrifício. Trabalhamos pelos filhos, crescemos pelos filhos, buscamos estabilidade pelos filhos. Tudo por eles.
E há uma verdade imensa nisso, mas não é a verdade inteira! Eu também trabalho por mim.
Pela mulher que fui antes de ser mãe, pela profissional que me tornei depois, pela empresária que gosta de ver uma ideia prosperar, pela pessoa que ainda tem sonhos.
Trabalho porque quero proporcionar uma vida boa aos meus filhos. E porque também quero ter uma vida boa.
Por que uma dessas coisas nos causa constrangimento?
É socialmente aceitável que uma mulher trabalhe até a exaustão para garantir o sustento da família. Admiramos sua força, reconhecemos sua dedicação, a chamamos de “guerreira”.
Mas o que acontece quando essa mesma mulher diz que não quer apenas sobreviver?
Quando afirma que deseja ganhar muito bem, ampliar seus negócios, conquistar independência financeira e experimentar a liberdade que o dinheiro pode proporcionar?
Dinheiro não resolve tudo. Não substitui afeto, não compra tempo perdido e não elimina a exaustão. Mas seria ingênuo fingir que ele não amplia possibilidades, e eu quero possibilidades. E sei que você também.
Claro que também quero isso para os meus filhos. Quero que eles cresçam sabendo que dinheiro é uma ferramenta importante, mas não uma medida do valor de ninguém. Que trabalhar pode ser cansativo, mas também prazeroso. Que mulheres podem ser ambiciosas sem serem egoístas e que mães podem ser realizadas profissionalmente sem estarem emocionalmente ausentes.
Isso não significa romantizar a sobrecarga ou transformar o sucesso financeiro em mais uma obrigação materna. Nem toda mulher encontra realização na carreira, nem toda mãe deseja empreender e nenhuma deveria precisar provar seu valor pela produtividade.
Estamos falando justamente do direito de escolher. Inclusive, do direito de querer mais.
Porque existe uma armadilha bastante sofisticada na maneira como ensinamos as mães a lidar com suas conquistas: podemos desejar muito, desde que o motivo principal seja alguém. Podemos trabalhar incansavelmente, desde que estejamos nos sacrificando. Podemos crescer, desde que não pareça que estamos gostando demais da experiência.
E eu não quero ensinar aos meus filhos que amar alguém significa desaparecer dentro das necessidades dessa pessoa.
Quero que saibam que a mãe deles ama profundamente a maternidade e também ama outras partes da própria vida.
Que sinto alegria em buscá-los na escola e em fechar um bom contrato. Que gosto de estar sentada no chão brincando com eles e de estar sentada em uma reunião discutindo estratégias e projetos.
Que posso ser profundamente grata pela vida que construí e continuar desejando ampliá-la.
Meus filhos não são o limite dos meus sonhos, são parte deles.
E não quero sentir que preciso pedir desculpas por isso.
Com carinho,
Gabi Cano