Por Luíza Lopes 25/10/26

O contato pele a pele entre pais e bebê, já conhecido pelos benefícios para o recém-nascido, também pode ajudar a proteger a saúde mental da mãe. Uma meta-análise publicada em 2026 na revista científica Pediatric Research associou a prática a uma redução significativa dos sintomas de depressão pós-parto. Os resultados foram ainda mais expressivos entre mães de bebês prematuros.

A depressão pós-parto atinge de 10% a 17% das mulheres no mundo, segundo uma revisão de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicada em julho de 2026. Em países de baixa renda, o índice pode chegar a 40%.

No contato pele a pele, o bebê é colocado diretamente sobre o tórax da mãe ou do pai. “É um momento de conexão física e emocional muito bem-vindo para o recém-nascido e para a família”, explica Renata Mascaretti, coordenadora médica da neonatologia da Maternidade Star. Segundo ela, todos os bebês se beneficiam, independentemente da idade gestacional e de estarem internados ou em casa.

Por que o contato pele a pele protege a mãe

Quando o recém-nascido é colocado sobre o peito da mãe, o corpo dela libera ocitocina, conhecida como o hormônio do vínculo, o que pode reduzir o estresse e fortalecer a conexão entre os dois. Quem explica é o obstetra Eduardo Cordioli, do Hospital e Maternidade Santa Joana. Para ele, há também um componente psicológico: “O contato pele a pele permite que a mulher reconheça os sinais do bebê, perceba sua capacidade de acolhê-lo e desenvolva confiança no novo papel de mãe”.

Para a neonatologista Renata Mascaretti, o contato pele a pele deve ser um momento tranquilo, e não uma obrigação (Foto: Magnific)

A psicanalista e orientadora parental Sueli Simões, mãe de Júlia, vê no gesto a passagem do bebê imaginado para o bebê real. “Durante a gestação, aquele bebê era expectativa, imagem e fantasia. Agora é peso, calor, cheiro e movimento.” Para ela, o vínculo se constrói aos poucos, na repetição de pequenos gestos.

O obstetra faz uma ressalva: a prática contribui para proteger a saúde mental, mas não garante que a depressão pós-parto será evitada.

Efeito maior entre mães de prematuros

Segundo Renata, o nascimento prematuro costuma ser inesperado e interrompe os planos construídos durante a gestação. “Muitas mães precisam enfrentar a separação precoce do filho, a internação na UTI Neonatal, o medo das complicações e a incerteza sobre o futuro”. Nesse cenário, o contato ajuda a reconstruir uma proximidade que foi interrompida.

A revisão da UFMG chegou a uma conclusão semelhante. O efeito positivo foi mais robusto no Método Canguru aplicado a prematuros e bebês de baixo peso. Em um dos estudos analisados, com 177 mães de prematuros, a taxa de depressão pós-parto caiu de 37,3% na internação na UTI para 16,9% na alta. Os autores ponderam que as pesquisas ainda são muito diferentes entre si para permitir recomendações definitivas, mas defendem a prática por ser segura e de baixo custo.

O Canguru vai além do contato pele a pele. “É um modelo de cuidado, uma metodologia de assistência neonatal humanizada, desenvolvida para recém-nascidos prematuros”, explica Renata. No Brasil, o método é política pública do Ministério da Saúde desde 2000 e se divide em três etapas. A primeira acontece na UTI Neonatal ou na unidade intermediária. Na segunda, o contato pele a pele fica mais longo, com a mãe internada junto ao bebê. A terceira começa depois da alta, com acompanhamento ambulatorial.

Família também faz parte

O contato pele a pele não é exclusividade da mãe. Em diretriz de 2022 sobre o cuidado de bebês prematuros e de baixo peso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o contato pele a pele seja feito por um cuidador, não necessariamente a mãe, e defende que a família seja cuidada como uma unidade. “Quando o pai participa ativamente dos cuidados, ele não está simplesmente ajudando a mãe: está assumindo seu papel de cuidador”, afirma Eduardo. O obstetra pondera, porém, que ainda não há evidências de que o contato feito pelo pai, isoladamente, reduza a depressão materna.

Duas mães sorridentes abraçam um bebê, sentadas em um sofá rosa
Pai, outra mãe ou outro cuidador também podem, e devem, fazer o contato pele a pele com o bebê (Foto: Magnific)

Para Sueli, o apoio da família funciona melhor quando chega com iniciativa. “Em vez de perguntar ‘o que você quer que eu faça?’, que exige que ela pense e decida, é mais acolhedor chegar com iniciativa: ‘Eu fico com o almoço e com a louça; você descansa’.” Ela sugere revezar as noites, controlar as visitas, levar comida pronta e evitar pitacos sobre amamentação, colo e rotina.

Como fazer o contato pele a pele em casa com segurança

Renata lista os principais cuidados:

  • o adulto deve estar acordado, atento e numa posição segura, evitando cama, sofás ou poltronas instáveis;
  • o bebê deve ficar de preferência na vertical, com a cabeça virada para um lado, o pescoço em posição neutra e o nariz e a boca livres;
  • não é preciso agasalhar demais o bebê, porque o corpo dos pais já o aquece;
  • mantas e roupas não podem cobrir a boca e o nariz do bebê.

“É muito importante que esse momento seja prazeroso, tranquilo e não seja uma obrigação”, reforça a neonatologista.

E se o contato não for possível logo após o parto, por causa de uma cesárea de urgência ou de uma internação na UTI, por exemplo, isso não significa ausência de vínculo, diz Sueli. “O afeto às vezes chega depois, como uma construção que se faz na convivência e não como um raio que cai no parto.”

Baby blues ou depressão pós-parto?

O baby blues é uma reação emocional comum nos primeiros dias após o parto, que atinge boa parte das mulheres, segundo Sueli. Ele costuma aparecer entre o 3º e o 5º dia e durar até cerca de duas semanas, com choro fácil, oscilações de humor, cansaço e sensação de sobrecarga. Mesmo assim, a mãe continua conseguindo cuidar de si e do bebê, e o quadro melhora com o tempo e com acolhimento. Na depressão pós-parto, os sintomas duram duas semanas ou mais e incluem tristeza profunda, perda de interesse pelas coisas, culpa persistente e distanciamento do bebê. Esse quadro pode surgir até cerca de um ano após o nascimento.

Eduardo alerta que a doença ainda é subdiagnosticada e que o rastreamento deve começar no pré-natal, com instrumentos como a Escala de Depressão Pós-Natal de Edimburgo. Quando os sintomas são intensos, não é preciso esperar duas semanas para buscar ajuda, que pode começar na UBS ou com o obstetra. O tratamento pode incluir psicoterapia e medicamentos compatíveis com a amamentação. Pensamentos de se machucar ou de fazer mal ao bebê exigem atendimento de emergência.

“Precisamos deixar de perguntar apenas como está o bebê e passar a perguntar, com a mesma atenção, como está a mãe”, resume o obstetra.

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