Por Val Pasini 22/07/26

Trago mais um tema de grande relevância e que precisa de atenção: o luto antecipatório. O luto, que geralmente descrevemos como sentimento após a morte, pode ser vivido de maneira prévia, sem mesmo um fato concreto acontecer, e afeta inúmeras famílias. Por isso, Graziela Ducati, jornalista, especialista em Customer Experience e mãe do Pedro, fala com sensibilidade e propriedade, dentro do grupo multidisciplinar do Projeto Escola para Pais, sobre uma realidade ainda pouco discutida, mas vivida diariamente por milhares de famílias:

Conviver com uma doença grave, progressiva ou sem perspectiva de cura desperta um luto silencioso que impacta toda a família e ainda é pouco compreendido pela sociedade. Foi em 1944 que o psiquiatra Erich Lindemann descreveu pela primeira vez o fenômeno que observou entre esposas de soldados enviados para a guerra. Antes mesmo da perda acontecer, elas já vivenciavam intensamente o sofrimento emocional provocado pela possibilidade da morte. Surgia, assim, o conceito de luto antecipatório.

Conheci esse termo apenas anos depois. Durante quase 14 anos acompanhando a trajetória do meu filho Pedro, a expressão que me acompanhava era “morte anunciada”. Hoje compreendo que aquilo que nossa família viveu tinha nome, estudos e explicações. Dar nome à dor não a elimina, mas permite acolhê-la com mais compreensão.

Infelizmente, tanto a morte quanto o luto continuam sendo temas cercados por silêncio. Basta mencioná-los para que muitas pessoas mudem de assunto, demonstrem desconforto ou se afastem. Como sociedade, ainda temos dificuldade em falar sobre perdas, especialmente quando elas ainda não aconteceram.

(Foto: Unsplash)

Ter um filho com uma doença degenerativa ou acompanhar alguém que amamos diante de uma condição que ameaça a vida não é consequência de falta de fé, azar ou descuido. Essas situações podem atingir qualquer família. Basta lembrar das crianças diagnosticadas com câncer, doenças raras, malformações congênitas, paralisia cerebral ou outras condições graves.

As doenças associadas ao luto antecipatório variam conforme o prognóstico. Na década de 1990, por exemplo, o HIV frequentemente despertava esse tipo de luto devido à baixa expectativa de vida. Com os avanços da medicina e dos tratamentos, esse cenário mudou, mostrando que o luto antecipatório está diretamente relacionado à percepção da ameaça e às perspectivas de sobrevivência.

Esse processo produz impactos profundos em toda a família. O cotidiano passa a ser marcado pelo estresse constante, sobrecarga física e emocional, isolamento social, ansiedade, tristeza persistente e maior risco para quadros depressivos. Além disso, instala-se uma difícil ambiguidade: vive-se intensamente o presente enquanto o futuro parece incerto demais para ser planejado.

Durante muito tempo, vivemos tudo isso sem saber que era um tipo de luto. Não validávamos nossa própria dor, porque acreditávamos que só existia luto depois da morte. No entanto, a perda começa muito antes do adeus definitivo: ela acontece quando projetos são interrompidos, sonhos são transformados e a rotina passa a girar em torno da doença.

Escrevo este artigo na esperança de que outras mães e famílias reconheçam seus sentimentos e compreendam que não estão sozinhas. Falar sobre o luto antecipatório é oferecer acolhimento, diminuir a solidão e ampliar a empatia de quem convive com essa realidade.

Como escreveu Dora Incontri: “A morte, para os que ficam, convida a um despertar da alma, para viver com mais consciência a vida de agora.”