Por Camila Pusiol 18/12/25

Falar sobre saúde mental ainda é difícil para muitos homens.

Quando o assunto é paternidade, o silêncio costuma ser ainda maior.

Uma pesquisa realizada pela Parents em parceria com a Verywell Mind, com mais de 1.600 pais, joga luz sobre um desconforto que raramente ganha espaço: a sensação de não ser visto ou ouvido.

A maioria dos pais entrevistados relatou níveis significativos de estresse, e grande parte associa esse peso diretamente às responsabilidades de cuidar dos filhos e sustentar a família.

Ainda assim, muitos dizem sentir que esse esforço passa despercebido.

Pais sobrecarregados e em silêncio

A pesquisa mostra que dois em cada três pais vivenciaram estresse moderado ou alto recentemente.

E, quase metade afirma que ao menos metade dessa pressão está ligada à paternidade.

Para muitos, o papel de provedor continua sendo um dos principais gatilhos de ansiedade, mesmo em famílias onde as responsabilidades financeiras são mais divididas, seja com as mães ou outros membros.

Ainda assim, falar sobre isso não é simples.

Muitos pais relatam medo de julgamento ao abordar questões emocionais, seja com amigos, familiares ou colegas de trabalho. O resultado é um acúmulo silencioso de cansaço, frustração e isolamento.

Especialistas em terapia familiar explicam que não se sentir visto dentro da própria família pode gerar um afastamento emocional profundo, com impactos diretos na saúde mental e nos relacionamentos.

Um esforço despercebido

Um dos dados mais simbólicos do levantamento aponta que 59% dos pais acreditam fazer mais pelos filhos do que recebem crédito. Essa percepção é mais comum entre pais que participam ativamente da rotina doméstica e dos cuidados diários, mas que continuam sendo visto apenas como “ajudantes”.

Para terapeutas familiares, esse sentimento de invisibilidade pode ser devastador.

Ser reconhecido, ouvido e valorizado não é um detalhe é parte fundamental da construção de vínculos saudáveis.

A falta de reconhecimento, somada à pressão social para “dar conta de tudo”, pode inclusive, criar um ambiente propício para o desgaste emocional e o afastamento dos filhos.

O peso dos papéis de gênero

Embora a paternidade tenha mudado muito nas últimas décadas, estereótipos antigos ainda influenciam a forma como os pais se veem e são vistos. Muitos homens cresceram ouvindo que deveriam ser fortes, silenciosos e resilientes a qualquer custo.

Esse modelo acaba dificultando pedidos de ajuda e conversas abertas sobre sofrimento emocional.

Não por acaso, uma parcela significativa dos pais entrevistados afirmou não saber expressar seus sentimentos ou nunca conversar sobre saúde mental com amigos.

Psicólogos apontam que esse padrão contribui para um distanciamento social após a chegada dos filhos, com perda de vínculos e sensação de solidão, mesmo dentro da família.

O que faz diferença, na prática

Para profissionais da área, romper esse ciclo passa por pequenas mudanças cotidianas.

Relações em que há diálogo aberto, reconhecimento mútuo e divisão real de responsabilidades tendem a proteger melhor a saúde emocional de todos os envolvidos.

Parceiros que validam sentimentos, ambientes onde pedir ajuda não é visto como fraqueza e redes de apoio que incluem os pais são fatores essenciais. Além disso, normalizar a busca por terapia e autocuidado pode transformar não apenas a vida dos pais, mas também a das crianças.

Cuidar da saúde mental paterna não é um luxo nem uma pauta paralela. É parte do cuidado com a família como um todo. Quando os pais se sentem apoiados, toda a dinâmica familiar se fortalece.

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