Falar de educação antirracista em casa passa por entender o racismo, a discriminação baseada na raça, como algo que vai além das ofensas e está no funcionamento da sociedade. Segundo o IBGE, pretos e pardos são maioria no país, mas a população branca conclui mais o ensino superior e está menos exposta à pobreza. Ser antirracista é agir para mudar essa lógica.
Uma em cada seis crianças brasileiras de até 6 anos já sofreu racismo, segundo os responsáveis por elas. O dado é do Panorama da Primeira Infância, pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o Datafolha divulgada em outubro de 2025. Ainda assim, 22% dos entrevistados consideram o racismo quase inexistente nos primeiros anos de vida.
Para a psicanalista Janine Rodrigues, escritora e fundadora da Piraporiando, acreditar que a criança não percebe o racismo é mais uma forma de desumanizá-la. Na visão dela, essa crença nega à criança negra algo reconhecido em qualquer criança, que é a capacidade de sentir e de ser afetada pelo que vive.
Como a criança percebe o racismo
Um passeio pelo shopping já ensina alguma coisa. Em bairros de classe média, a criança vê, na maioria das vezes, pessoas brancas à mesa, comprando e dando ordens, e pessoas negras servindo, limpando ou pedindo. A cena, apontada por Janine, mostra que o silêncio dos adultos não deixa a criança neutra diante do que ela observa.
Por isso, a psicanalista considera irresponsável evitar o tema com o argumento de que “somos todos iguais”. Segundo ela, esse aprendizado começa ainda na gestação, quando a vida social chega ao bebê mediada pela mãe. Antes da escola, portanto, é a família, primeiro núcleo social da criança, quem oferece as primeiras referências sobre raça.
Essas referências chegam também pelo afeto, como mostra a pesquisadora Jussara Santos no livro Democratização do colo, citado por Janine. Segundo a obra, bebês e crianças negras recebem menos colo, abraços e carinho em escolas e outros espaços sociais, uma diferença que a criança sente muito antes de conseguir explicar.
Mesmo sem ser nomeada, essa vivência pode ganhar sentido mais tarde, o que a psicanálise chama de a posteriori, conceito que Janine usa para pensar os efeitos do racismo. Assim, a falta de colo sentida aos 2 anos pode ganhar outro peso quando a criança passa a entender o abraço como gesto social e de afeto.

Como diversificar o repertório
Buscar livros, filmes e desenhos com mais diversidade, com protagonistas que não sejam brancos, por exemplo, é um bom começo. Assim, a criança conhece pessoas, histórias e vivências diferentes das que encontra no próprio círculo familiar. Para Janine, também importa como esses personagens são retratados e quais narrativas contam sobre eles.
Diversificar, porém, não significa proibir o que a criança já ama, o que só a puniria sem que ela entendesse o porquê. “O problema não é Frozen, é ‘só’ ter Frozen”, diz a psicanalista. A ideia é ampliar as opções, e a criança só tem a ganhar com isso.
E ampliar com convicção, porque a criança percebe quando o adulto não acredita no que oferece. Se personagens negros parecem aos pais menos bonitos ou interessantes que os brancos, vale olhar para esse incômodo. Para Janine, ele é produto de uma estrutura racista, e mudá-lo é uma escolha diária.
Essa mudança se traduz em escolhas concretas, como os livros que entram em casa, os lugares onde a família passeia e quem está no elenco da peça de teatro. “Educar dá trabalho. Então, ou agimos com intencionalidade ou estaremos reforçando o modus operandi do racismo”, afirma Janine.

Educação antirracista: escuta e acolhimento
O olhar atento dos responsáveis também se estende à escola. Para Janine, a família não precisa esperar um episódio explícito para agir. Observar se a instituição só fala de pessoas negras em novembro, se há pessoas negras na gestão e como está a biblioteca já revela muito sobre o ambiente que a criança frequenta.
Em casa, escutar é igualmente decisivo. Janine trabalha com as ideias do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, para quem a linguagem da criança é a da ternura e do brincar. Quando ela relata uma dor e o adulto duvida ou minimiza, ele deixa de ser testemunha do que ela viveu, e o que importa, segundo Janine, é a dor, não a exatidão dos fatos.
Esse desamparo pode aparecer em atitudes como alisar o cabelo, fugir do sol ou rejeitar tudo o que remete a ser negro. Janine trata do tema em um artigo que integra o livro Ferenczi pelo Brasil, finalista do Prêmio Jabuti. Para ela, quando esse esforço não muda a forma como a criança é acolhida, há risco de um sofrimento psíquico grave, que abala sua relação consigo mesma e com a realidade.
Por fim, a educação antirracista é tarefa de todas as famílias, e não só das negras. Janine é direta: “Não foi o negro quem criou o racismo. É no mínimo perverso achar que caberá a nós a criação de uma solução para o fim deste mal”. Por isso, famílias brancas também precisam falar sobre o tema entre si e com os filhos.