Com a matrícula escolar em 2027 se aproximando, muitas famílias se perguntam se devem renovar ou procurar outra escola. Na rede pública ou na particular, a decisão vai além de localização e preço. Reunimos o que observar com as educadoras Valesca Karsten, cofundadora e diretora do Caracol Escolinha, e mãe de Thiago e Roberta, e Taís Bento, especialista na relação família-escola, cofundadora do SOS Educação e filha de Roberta Bento.
Ficar ou trocar
O principal termômetro é a própria criança, defende Valesca. Se ela vai com entusiasmo para a escola, tem amigos, compartilha descobertas em casa e se sente segura para ser quem é, é sinal de que está no lugar certo. Quando algo não vai bem, vale conversar com a equipe antes de pensar em trocar, já que muitas dificuldades podem ser resolvidas.
Se a conversa não resolve, Taís aponta o primeiro sinal de que é hora de trocar: a perda do elo de confiança entre família e escola. “Para a criança, a escola ideal e que mais vai combinar com ela é a escola em que a família acredita”. A escola não precisa fazer o mesmo que a família faz em casa, mas precisa estar alinhada com ela.

Valesca aponta que uma boa pista desse alinhamento está na comunicação: escolas abertas ao diálogo ouvem os pais e compartilham com eles não só as dificuldades, mas também as conquistas das crianças. Conversar com outras famílias ajuda a completar o quadro. E a relação não deve ser lembrada só na rematrícula, porque é acompanhando a vida escolar ao longo do ano que a família percebe se a parceria continua funcionando.
Na hora de decidir, vale lembrar que a mudança tem peso. Uma revisão de estudos do National Education Policy Center, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, aponta que mudar de escola pode prejudicar o desenvolvimento porque rompe as relações da criança com colegas e professores. O impacto é maior quando as trocas se repetem ou coincidem com problemas em casa, e pode ser menor quando a mudança é planejada para a virada do ano letivo ou leva a uma escola de melhor qualidade.
O que observar na visita
“Os pais não precisam entender de pedagogia para avaliar uma escola”, afirma Valesca. Taís recomenda agendar a visita para um horário de aula e, se possível, acompanhar o intervalo, quando dá para ver como as crianças interagem.
A proposta pedagógica precisa aparecer no dia a dia, e não só no discurso. Se a escola diz valorizar a criatividade, por exemplo, as crianças precisam ter oportunidades reais de criar. Por isso, a rotina é o melhor lugar para avaliar a escola. Na visita, observe e pergunte:
- se as crianças brincam, interagem e são acolhidas;
- se há espaços ao ar livre e se o brincar tem lugar importante na rotina;
- se as crianças ouvem histórias e têm acesso a livros;
- se arte e música fazem parte do dia a dia;
- como a escola cuida da alimentação;
- como funcionam a adaptação e a rotina;
- como é a formação continuada dos profissionais e se a equipe muda muito;
- se os pais têm acesso fácil à equipe, especialmente aos professores.

A inclusão também merece atenção, mesmo que seu filho não tenha nenhuma deficiência ou necessidade específica, porque a forma como a escola acolhe cada criança diz muito sobre ela. Taís recomenda perguntar diretamente à coordenação como a escola faz esse trabalho e aproveitar o intervalo para observar onde está a criança que precisa de mais apoio e como ela participa das interações com os colegas.
O custo vai além da mensalidade
Na rede pública, o ensino é gratuito, e os prazos e as regras da matrícula escolar 2027 variam conforme o estado e o município, por isso vale consultar a secretaria de educação. Na rede particular, por outro lado, a conta vai além da mensalidade e inclui gastos como material, uniforme, transporte e alimentação.
Para essas famílias, a cartilha do Procon de São Paulo, com base na Lei 9.870/1999, lembra alguns direitos:
- a escola deve divulgar o contrato com o valor da anuidade pelo menos 45 dias antes da data final de matrícula;
- o reajuste só pode ocorrer uma vez por ano, com planilha de custos, e a lei não fixa um teto;
- incluir material de uso coletivo na lista, como papel higiênico e produtos de limpeza, é prática abusiva;
- o uniforme pode ser exigido, mas sem fornecedor exclusivo, a não ser quando o item só existe ali.
A decisão é da família, e a adaptação começa nas férias
Na educação infantil e no ensino fundamental, quem decide é a família. “A criança não tem nem a parte racional do cérebro pronta para conseguir tomar uma decisão de uma importância tão grande como essa”, diz Taís. No caso dos adolescentes, eles podem até participar da conversa, mas a palavra final é sempre dos adultos.
A adaptação começa antes do primeiro dia. Taís sugere levar a criança para conhecer a escola com antecedência e tratar a volta às aulas como um momento especial, evitando frases como “logo vai acabar a moleza”. Envolver a criança nos preparativos, como arrumar o material e deixar o uniforme ao alcance dela, também ajuda. Já as dúvidas sobre como ela vai reagir devem ficar entre os adultos. “Essas inseguranças precisam ficar no mundo dos adultos”, diz Taís. Se a escola for nova, conhecer uma família da turma e marcar um programa juntos nas férias facilita a chegada.
Por fim, Valesca lembra que o tempo da infância não volta: respeitar cada etapa do desenvolvimento, sem pressa de antecipar aprendizagens, é o que permite à criança viver plenamente essa fase.