Por Luíza Lopes 31/10/26

Abóboras, bruxas e caveiras já tomaram conta de escolas, condomínios e festas infantis. O Halloween para crianças costuma ser diversão garantida, mas, para algumas, basta uma máscara mais realista para a noite terminar em choro. Daí vem a dúvida de muitos pais: expor os filhos a fantasias e histórias assustadoras faz bem ou mal?

Para a neurologista pediátrica Letícia Brito Sampaio, do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or, tudo depende da dose. “Medo não é vilão! Quando acontece em pequenas doses, num ambiente seguro e com os pais por perto, ele ajuda a criança a aprender a lidar com emoções fortes”, afirma.

O que acontece no cérebro

Um susto aciona primeiro a amígdala, estrutura cerebral que funciona como um sistema de alarme e coloca o corpo em estado de fuga: os batimentos aceleram e a respiração fica mais rápida. Logo depois, entra em ação o córtex pré-frontal, que processa o que causou o susto, identifica que é só uma fantasia e ajuda a acalmar a reação.

No adulto, essa região já está madura, enquanto ainda está em desenvolvimento na criança. Por isso, “o susto pesa mais e demora mais para passar”, explica Letícia.

Fantasia ou realidade?

Uma dissertação da PUC-SP estudou como a causa do medo muda conforme a criança cresce. A pesquisadora pediu a 198 crianças de 6 a 11 anos, de escolas de São Paulo, que desenhassem o que lhes dava medo. Aos 7 anos, monstros, fantasmas e outros seres sobrenaturais apareceram em 38,6% dos desenhos. Aos 11, caiu para apenas 14,3%. Conforme vão ficando mais velhas, os seres sobrenaturais deram lugar a medos como a morte, acidentes e abandono. O estudo também observou que, mesmo assustadas, as crianças se mostraram atraídas por essas figuras.

Os monstros foram os seres sobrenaturais mais desenhados pelas crianças, à frente de fantasmas, zumbis e vampiros (Foto: Magnific)

Letícia explica que a distinção entre o real e o imaginário se constrói aos poucos. Nos primeiros anos de vida, a criança avalia se está em segurança pela expressão dos adultos e por isso, como a máscara cobre o rosto, até um pai fantasiado pode causar estranhamento. Dos 3 aos 5 anos, ela já percebe que as aparências enganam, mas os dois mundos ainda se confundem. “Ela pode até dizer ‘é de mentira’ e continuar com medo”, diz a neurologista. Por volta dos 6 ou 7 anos, a maioria consegue separar uma coisa da outra, o que não impede que continue se assustando. Nesse ponto, o temperamento de cada uma pesa bastante.

Halloween para crianças de cada idade

Em festas, a combinação de som alto, luzes piscando, aglomeração e sustos pode ser demais para as crianças. Algumas reagem com irritação, choro e agitação. Outras simplesmente congelam. A saída, de acordo com Letícia, não é deixá-las em casa, já que participar dessas comemorações favorece a imaginação, a socialização e a coragem. O caminho é ajustar a festa à faixa etária:

  • Até 2 anos: fantasias delicadas e sem máscara, em ambientes calmos e por pouco tempo.
  • De 3 a 5 anos: personagens amigáveis, como abóboras e fantasminhas, em festas durante o dia e sem sustos inesperados. A criança pode escolher a própria fantasia.
  • De 6 a 9 anos: um pouco de suspense é bem-vindo, desde que ela tenha decidido participar e possa parar quando quiser.
  • A partir dos 10 anos: temas mais assustadores costumam agradar, mas conteúdos muito violentos merecem atenção.

Para crianças com autismo, TDAH, sensibilidade sensorial ou ansiedade, a neurologista recomenda uma preparação maior, protetor auricular e um plano para sair da festa, se necessário.

Menino em um quarto escuro cobre os olhos com as mãos enquanto abraça uma almofada verde em formato de lápis, ao lado de um abajur aceso
Pesadelos e medo do escuro nos dias seguintes à festa podem ser sinal de que o susto passou do limite (Foto: Magnific)

Quando passou do limite

Durante a festa, alguns sinais pedem atenção: choro que não cede nem com colo, vontade de fugir, paralisia ou a criança grudada nos pais sem querer se afastar. Depois, o susto pode aparecer em pesadelos, medo de dormir sozinha ou no escuro, xixi na cama, irritação, dificuldade de se separar dos pais ou insistência em falar sobre o monstro.

De acordo com Letícia, é esperado que isso dure alguns dias e melhore com carinho e rotina. “Se os sinais durarem mais de duas a quatro semanas ou começarem a atrapalhar o sono, a escola ou o dia a dia, vale conversar com o pediatra.”

Como preparar e acolher

Antecipar o que vai acontecer ajuda a tornar o Halloween para crianças mais tranquilo. A neurologista sugere contar como será a festa e mostrar fotos de fantasias. Em casa, brincar de pôr e tirar máscaras mostra que sempre há alguém por trás delas. Escolher a própria fantasia e participar da decoração também deixa a criança mais à vontade. Outra dica é combinar uma palavra secreta para ela avisar que quer ir embora e respeitar o pedido quando ele vier.

Se o susto acontecer, minimizar o sentimento não ajuda. “Para ela, o medo é real”, lembra Letícia. O ideal é se abaixar na altura da criança, oferecer colo, reconhecer o susto com calma e se afastar do que a assustou. Obrigá-la a encarar o “monstro” para superar o medo não é recomendado. Só depois que ela se acalmar vale mostrar que era apenas alguém fantasiado.

Afinal, o Halloween para crianças não precisa ser livre de medo. O importante é que elas aproveitem a festa na medida certa, sabendo que têm com quem se apoiarem por perto.

Veja mais