Abóboras, bruxas e caveiras já tomaram conta de escolas, condomínios e festas infantis. O Halloween para crianças costuma ser diversão garantida, mas, para algumas, basta uma máscara mais realista para a noite terminar em choro. Daí vem a dúvida de muitos pais: expor os filhos a fantasias e histórias assustadoras faz bem ou mal?
Para a neurologista pediátrica Letícia Brito Sampaio, do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or, tudo depende da dose. “Medo não é vilão! Quando acontece em pequenas doses, num ambiente seguro e com os pais por perto, ele ajuda a criança a aprender a lidar com emoções fortes”, afirma.
O que acontece no cérebro
Um susto aciona primeiro a amígdala, estrutura cerebral que funciona como um sistema de alarme e coloca o corpo em estado de fuga: os batimentos aceleram e a respiração fica mais rápida. Logo depois, entra em ação o córtex pré-frontal, que processa o que causou o susto, identifica que é só uma fantasia e ajuda a acalmar a reação.
No adulto, essa região já está madura, enquanto ainda está em desenvolvimento na criança. Por isso, “o susto pesa mais e demora mais para passar”, explica Letícia.
Fantasia ou realidade?
Uma dissertação da PUC-SP estudou como a causa do medo muda conforme a criança cresce. A pesquisadora pediu a 198 crianças de 6 a 11 anos, de escolas de São Paulo, que desenhassem o que lhes dava medo. Aos 7 anos, monstros, fantasmas e outros seres sobrenaturais apareceram em 38,6% dos desenhos. Aos 11, caiu para apenas 14,3%. Conforme vão ficando mais velhas, os seres sobrenaturais deram lugar a medos como a morte, acidentes e abandono. O estudo também observou que, mesmo assustadas, as crianças se mostraram atraídas por essas figuras.

Letícia explica que a distinção entre o real e o imaginário se constrói aos poucos. Nos primeiros anos de vida, a criança avalia se está em segurança pela expressão dos adultos e por isso, como a máscara cobre o rosto, até um pai fantasiado pode causar estranhamento. Dos 3 aos 5 anos, ela já percebe que as aparências enganam, mas os dois mundos ainda se confundem. “Ela pode até dizer ‘é de mentira’ e continuar com medo”, diz a neurologista. Por volta dos 6 ou 7 anos, a maioria consegue separar uma coisa da outra, o que não impede que continue se assustando. Nesse ponto, o temperamento de cada uma pesa bastante.
Halloween para crianças de cada idade
Em festas, a combinação de som alto, luzes piscando, aglomeração e sustos pode ser demais para as crianças. Algumas reagem com irritação, choro e agitação. Outras simplesmente congelam. A saída, de acordo com Letícia, não é deixá-las em casa, já que participar dessas comemorações favorece a imaginação, a socialização e a coragem. O caminho é ajustar a festa à faixa etária:
- Até 2 anos: fantasias delicadas e sem máscara, em ambientes calmos e por pouco tempo.
- De 3 a 5 anos: personagens amigáveis, como abóboras e fantasminhas, em festas durante o dia e sem sustos inesperados. A criança pode escolher a própria fantasia.
- De 6 a 9 anos: um pouco de suspense é bem-vindo, desde que ela tenha decidido participar e possa parar quando quiser.
- A partir dos 10 anos: temas mais assustadores costumam agradar, mas conteúdos muito violentos merecem atenção.
Para crianças com autismo, TDAH, sensibilidade sensorial ou ansiedade, a neurologista recomenda uma preparação maior, protetor auricular e um plano para sair da festa, se necessário.

Quando passou do limite
Durante a festa, alguns sinais pedem atenção: choro que não cede nem com colo, vontade de fugir, paralisia ou a criança grudada nos pais sem querer se afastar. Depois, o susto pode aparecer em pesadelos, medo de dormir sozinha ou no escuro, xixi na cama, irritação, dificuldade de se separar dos pais ou insistência em falar sobre o monstro.
De acordo com Letícia, é esperado que isso dure alguns dias e melhore com carinho e rotina. “Se os sinais durarem mais de duas a quatro semanas ou começarem a atrapalhar o sono, a escola ou o dia a dia, vale conversar com o pediatra.”
Como preparar e acolher
Antecipar o que vai acontecer ajuda a tornar o Halloween para crianças mais tranquilo. A neurologista sugere contar como será a festa e mostrar fotos de fantasias. Em casa, brincar de pôr e tirar máscaras mostra que sempre há alguém por trás delas. Escolher a própria fantasia e participar da decoração também deixa a criança mais à vontade. Outra dica é combinar uma palavra secreta para ela avisar que quer ir embora e respeitar o pedido quando ele vier.
Se o susto acontecer, minimizar o sentimento não ajuda. “Para ela, o medo é real”, lembra Letícia. O ideal é se abaixar na altura da criança, oferecer colo, reconhecer o susto com calma e se afastar do que a assustou. Obrigá-la a encarar o “monstro” para superar o medo não é recomendado. Só depois que ela se acalmar vale mostrar que era apenas alguém fantasiado.
Afinal, o Halloween para crianças não precisa ser livre de medo. O importante é que elas aproveitem a festa na medida certa, sabendo que têm com quem se apoiarem por perto.