Por Luíza Lopes 07/11/26

Quando o filho exclui um colega ou faz um comentário que machuca, a forma como os pais reagem pode influenciar o que ele vai fazer depois. A psicologia diferencia duas emoções que costumam aparecer depois de um erro. A culpa é olhar para o ato e pensar “fiz algo errado”. A vergonha é olhar para si e concluir “eu sou uma pessoa ruim”.

Apesar da diferença sutil, os caminhos que ela leva são opostos. Uma revisão de pesquisas liderada pela psicóloga June Price Tangney, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, mostra que quem sente culpa tende a reparar o erro, pedindo desculpas e tentando consertar as consequências, e se coloca mais no lugar de quem foi afetado. Quem sente vergonha tende a negar, se esconder, se defender e até culpar os outros.

Na prática, isso começa no jeito como o adulto fala com a criança. Autoimagem e autoestima não nascem prontas, são construídas ao longo da infância, também a partir do que a criança ouve sobre si. Frases repetidas como “você só briga” ou “você faz tudo errado” reforçam a ideia de que o problema é ela, e não o que fez. Muitas vezes, basta mudar a conjugação do verbo. “Você não é nervosa, você não é ruim, você não é brava, você está”, exemplifica a psicóloga Renata Lela, especialista em infância e adolescência.

Isso não significa deixar o comportamento passar. A ideia é nomear o que a criança sente sem deixar de dizer que a atitude não foi legal, e pensar junto com ela em como poderia ter sido diferente.

Adolescente encostada em uma parede de tijolos, de braços cruzados, enquanto duas colegas conversam ao fundo
A exclusão nem sempre é explícita, e um olhar atento dos adultos ajuda a perceber quando alguém está sempre de fora (Foto: Magnific)

Por que seu filho exclui um colega

Excluir, ofender ou se isolar quase nunca tem uma causa só. Empatia, resolução de conflitos e a capacidade de fazer amizades são habilidades sociais, aprendidas ao longo da infância. A criança pode estar repetindo algo que viu em casa ou entre colegas, se defendendo de quem a magoou ou simplesmente sem saber como resolver um conflito. “Tem momentos em que ela não está fazendo por maldade. Ela simplesmente está fazendo porque não sabe resolver aquilo de uma forma satisfatória”, diz Renata.

A idade também conta. Até os 3 ou 4 anos, a criança ainda é muito centrada em si e, sem palavras para dizer o que sente, resolve os conflitos com o corpo, empurrando, batendo ou mordendo. Por volta dos 6 ou 7 anos, passa a sentir pena de quem sofre e a querer ajudar. Esse marco pode chegar antes quando a família estimula desde cedo, com histórias, brincadeiras e filmes, observa a psicóloga.

Também é preciso separar exclusão de preferência. A criança não precisa ser amiga de todo mundo, mas precisa aprender a expressar suas escolhas com respeito. “A gente vai precisar ensinar que ninguém deve ser humilhado por não fazer parte de uma amizade”, afirma a neuroeducadora Priscilla Montes. A diferença está na forma. “Dizer ‘agora eu quero brincar sozinho’ é muito diferente de dizer ‘ninguém vai brincar com você hoje’”, compara.

Deboche, ameaça, constrangimento e o grupo mobilizado contra um colega específico são sinais de alerta, especialmente se for sempre a mesma criança de fora. Como esse tipo de exclusão costuma ser silencioso, vale ficar atento. Em atividades coletivas, cabe a pais e professores garantir que todos participem. Para Priscilla, o papel do adulto é ensinar a criança a fazer as próprias escolhas sem que a preferência dela vire uma medida do valor do outro.

Como conduzir a conversa

Quando o filho exclui um colega ou o ofende, a prioridade é interromper a situação e acolher quem foi atingido. Priscilla orienta que o adulto deixe claro, com calma e firmeza, que não vai permitir aquele tratamento. A conversa fica para quando os ânimos baixarem e a criança estiver apta a aprender.

E, de preferência, sem plateia. Chamar a atenção da criança na frente de irmãos, colegas ou outros adultos tende a gerar mais raiva, sensação de inadequação e afastamento. “Muitas vezes, sem perceber, o adulto está querendo ensinar a criança a não fazer bullying fazendo bullying”, alerta Renata. Esse padrão costuma começar em casa, quase sempre sem má intenção, como quando o pai tira sarro de um medo do filho ou deixa as provocações entre irmãos correrem soltas.

Criança de costas, abraçada à cintura de um adulto
Acolher a criança depois de um erro não significa concordar com o que ela fez (Foto: Magnific)

Na conversa, vale começar ouvindo, sem justificar nem julgar. Perguntar como a criança está se sentindo e o que aconteceu antes ajuda a entender o que estava por trás do comportamento e abre caminho para mostrar o impacto dele no colega. Rótulos como “você é mau”, comparações, sermões longos e o famoso “era só brincadeira” atrapalham esse processo. “A gente precisa responsabilizar a criança pelo que ela fez, claro, mas sem apresentar que aquele erro vai ser uma definição de quem ela é”, resume a neuroeducadora.

O que está em jogo é a confiança. Renata propõe que os pais se perguntem se, num momento de raiva ou tristeza, o filho vai conseguir voltar para contar o que aconteceu ou se vai ter medo de ser humilhado, exposto ou ridicularizado. A mesma lógica vale para a escola, onde a criança também precisa se sentir segura para contar o que vive.

Reparar vai além do pedido de desculpas

Quando o filho exclui um colega, mandá-lo pedir desculpas e dar o assunto por encerrado costuma ser a saída mais rápida, mas não a mais eficaz. “O pedido de desculpa tem muito valor, mas ele precisa vir acompanhado de uma compreensão e da mudança”, diz Priscilla. O adulto pode ajudar a criança a reconhecer o que fez e pensar com ela em como reparar, incluindo o que fazer diferente da próxima vez. É justamente o movimento que as pesquisas associam à culpa, e não à vergonha. 

A empatia se aprende no dia a dia

Fora dos momentos de conflito, a empatia se constrói na convivência. A criança presta mais atenção no que os adultos fazem do que no que dizem, e aprende observando como eles tratam quem errou e reconhecem os próprios erros. Livros e filmes também ajudam, principalmente com perguntas como “o que você acha que esse personagem está sentindo?”.

Isso inclui a forma como os próprios adultos lidam com quem pensa ou age diferente deles. Renata conta que ouve com frequência relatos de mães de crianças autistas ou com TDAH deixadas de fora de brincadeiras e convites, muitas vezes porque a família dos colegas não estimula a convivência. “O adulto não ensina a criança a lidar com essa diferença, ele ensina a criança a excluir diante da diferença”, diz.

Nada disso significa pedir que a criança passe por cima do que sente. Como lembra Priscilla, “a empatia não exige que a criança abandone os seus próprios limites, mas ajuda a reconhecer que o outro também tem sentimentos, necessidades e limites e que precisam ser respeitados”.

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