Em um caso emocionante e singular, a australiana Ellidy Pullin, mais de um ano após a morte do marido, Alex “Chumpy” Pullin, vivenciou a experiência transformadora de dar à luz uma filha, fruto de uma fertilização in vitro realizada com sêmen coletado após a morte de Alex. O casal havia tentado engravidar por vários meses, mas sem sucesso, e a história de Ellidy se tornou um exemplo de como a medicina moderna pode, em algumas situações, oferecer uma chance de perpetuar a memória de um ente querido, mesmo diante de uma perda irreparável.
A trágica morte de Alex Pullin
Alex Pullin, atleta australiano renomado, campeão mundial de snowboard cross e porta-bandeira da Austrália nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, faleceu tragicamente em julho de 2020 aos 32 anos, enquanto praticava pesca submarina na costa leste da Austrália. A morte repentina e inesperada deixou sua esposa, Ellidy, devastada. Juntos, eles já haviam tentado engravidar, mas com resultados negativos, algo que só tornou o luto ainda mais doloroso para Ellidy.
Em meio à dor, uma amiga sugeriu uma possibilidade que poderia ajudá-la a realizar o sonho de ter um filho com Alex, mesmo após a morte dele. Ela falou sobre a coleta de esperma post-mortem, um procedimento que poderia possibilitar a fertilização in vitro com o material genético de Alex. Embora atordoada pela perda, Ellidy e sua família decidiram buscar essa solução, que exigia rapidez, já que o esperma deveria ser coletado nas primeiras horas após a morte.
O procedimento de coleta de esperma post-mortem
A coleta de esperma post-mortem, como foi realizada por Ellidy, é um procedimento delicado e altamente regulamentado. O tempo é um fator crucial: quanto mais rápido for feito, maiores são as chances de sucesso. Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), nos Estados Unidos, alertam que as chances de sucesso diminuem significativamente após 36 horas da morte. No caso de Alex, Ellidy e sua família conseguiram realizar a coleta apenas 36 horas após o falecimento dele, algo que demandou a ajuda de um médico especializado e a realização do procedimento de forma rápida e eficaz.
Em entrevista ao programa de rádio Outlook, da BBC, Ellidy falou sobre os momentos difíceis após a coleta: “Para ser sincera, quando soubemos que o esperma estava na geladeira, não pensamos mais no assunto por muito tempo. Mal conseguíamos superar o fato de que estávamos sentados, e que Chumpy não estava conosco”, disse, revelando o impacto emocional da situação.
As implicações legais e éticas da coleta pós-morte
Embora o procedimento tenha sido possível na Austrália, a coleta de esperma post-mortem não é permitida em todos os países. No Brasil, por exemplo, a legislação não contempla essa possibilidade, e qualquer procedimento desse tipo requer um consentimento claro e prévio do falecido. A médica especialista em reprodução humana, Maria do Carmo Borges de Souza, explica que no Brasil, a reprodução assistida post-mortem só é autorizada se houver autorização formal do falecido, como em testamentos ou documentos legais.
“A coleta de esperma após a morte, em situações como a vivida pela australiana, não está prevista nas normas do Conselho Federal de Medicina. Não existe uma legislação específica para esses casos, e a ação de um médico sem o consentimento prévio do falecido pode ser questionada”, afirmou Maria do Carmo. De acordo com a resolução nº 2.320/2022 do CFM, a reprodução assistida post-mortem só é permitida quando o material biológico foi previamente congelado com autorização do paciente.
O uso de tecnologias de reprodução assistida no caso de Ellidy
Após a coleta de esperma, Ellidy seguiu o caminho da fertilização in vitro (FIV). Nesse procedimento, os óvulos de Ellidy foram fertilizados com o esperma de Alex, e os embriões gerados foram congelados e implantados nela. A técnica requer que a clínica de fertilização tenha capacidade de armazenar e preservar os gametas de forma eficaz.
A gravidez foi confirmada, e em 25 de outubro de 2021, Ellidy deu à luz Minnie Alex Pullin, uma menina que se tornou um símbolo do amor eterno entre ela e Alex. Em uma publicação comovente nas redes sociais, Ellidy compartilhou seus sentimentos ao anunciar a chegada da filha: “Seu pai e eu sonhamos com você há anos, pequena. Com uma reviravolta de cortar o coração, estou honrada em finalmente dar as boas-vindas a um pedaço do fenômeno que é Chumpy de volta a este mundo.”
O nascimento de Minnie, embora uma grande alegria, não apagou a dor da perda de Alex. Em entrevista, Ellidy confessou que sente a falta do marido “o tempo todo”, mas que a vida segue, e sua filha trouxe um novo propósito. “Estou muito ocupada com a Minnie, com o trabalho. Penso nele todos os dias”, revelou.
Este nascimento também serve para lembrar a importância da memória afetiva, que pode transcender até a morte. Embora a ciência tenha permitido a criação de um novo ser, a conexão entre mãe e filha com Alex permanece viva em seus corações. Para Ellidy, Minnie representa não só uma continuidade da vida, mas também uma forma de manter a memória do marido viva para sempre.